Cidade do Porto, a mais antiga de Portugal, abriga ruas históricas e saborosos vinhos

Dec 31, 1969
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Barcos rabelos, que transportavam os barris de vinho das quintas para os armazéns, ancorados no Rio Douro em frente à Ribeira, o bairro antigo do Porto (Foto: Tales Azzi/ViajeMais)

Barcos rabelos, que transportavam os barris de vinho das quintas para os armazéns, ancorados no Rio Douro em frente à Ribeira, o bairro antigo do Porto (Foto: Tales Azzi/ViajeMais)

O gosto doce da mais antiga cidade de Portugal se dá pela mistura das ruas históricas com as muitas taças sorvidas do saboroso vinho local. 

Os lisboetas adoram lembrar de uma frase famosa do escritor Eça de Queirós, do final do século 19: “Portugal é Lisboa, o resto é  paisagem”. Pura alfinetada nos moradores do Porto, com quem os alfacinhas (apelido dos nascidos na capital portuguesa) nutrem uma rivalidade histórica. Pela ótica atual, a frase não faz sentido algum, nem poderia ser mais injusta, já que o Porto, a mais antiga cidade do país, tem motivos de sobra para inspirar uma viagem encantadora em terras lusitanas.

A começar pelo belíssimo centro histórico. Tombado pela Unesco como Patrimônio Mundial, suas ruas estreitas, à sombra de igrejas barrocas e casarões com roupas secando à janela, guardam o charme e o sabor de tempos passados.

Plantada às margens do Rio Douro, a cerca de 300 km ao norte de Lisboa, a cidade é um completo brinde aos sentidos: há do aroma da cebola assada com bacalhau dos restaurantes na região da Ribeira e do sabor licoroso de um bom vinho do Porto – produzido por ali há três séculos – à vista panorâmica dos mirantes no Terreiro da Sé ou no Mosteiro da Serra do Pilar.

Convicto dos muitos encantos que cercam a cidade, o portuense, claro, nunca engoliu a tal frase de Eça de Queirós e foi à forra com máximas próprias: “O Porto é uma nação”, referência ao fato de a cidade ter resistido às invasões dos mouros, que dominaram todo o centro-sul da Península
Ibérica por cerca de oito séculos, até serem definitivamente expulsos em 1492.

E há o fato de que a história do Porto começa bem antes que a de Portugal. Durante o Império Romano, existiam dois povoados próximos à foz do Douro, um em cada margem do rio. De um lado estava Portus (Porto) e do outro, Cale (Gaia). O lugar passou a ser conhecido por um só nome, Portucale. Lisboa pode até se gabar por ser a capital, mas nunca terá a honra de ter emprestado o nome ao país.

No século 16, o Porto detinha a maior frota de navios e os mais importantes estaleiros de Portugal. Dali saíram inúmeras embarcações que continuaram a descoberta de novos territórios. Na mesma época, entre seus habitantes estavam homens que ficaram na história da era dos descobrimentos, como Pero Vaz de Caminha, o autor da carta que relata a descoberta do Brasil, e Brás Cubas, o primeiro governador da Capitania de Pernambuco.

O vinho ganharia importância um século mais tarde – e a bebida transformaria-se no principal produto de exportação de Portugal.

A receita de produção daquele vinho licoroso e aveludado, que passaria a ser apreciado no mundo inteiro, começou a contar com um sabor mais próximo do que tem hoje por volta de 1650. Nessa época, os ingleses, que controlavam o comércio de vinho da região, colocaram conhaque nos barris para evitar que a bebida estragasse durante longas viagens marítimas. O sabor agradou.

Atualmente, é uma aguardente de uva que é colocada nos barris, interrompendo a fermentação e elevando o teor alcoólico da bebida. Boa parte da produção e do comércio de vinho do Porto ainda é realizado por empresas britânicas, o que explica o nome das marcas: Tailor’s, Sandeman, Offley e Graham’s, entre outras.

      

Ribeira e o centro histórico

A parte mais interessante do Porto é o bairro da Ribeira, centro antigo da cidade, tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1986. A região é delineada por um labirinto de ladeiras estreitas e casas de quatro ou cinco pavimentos, cujas fachadas normalmente estão voltadas para o Rio Douro. O cenário fica ainda mais à moda antiga com o desfile dos bondinhos de madeira, os elétricos, que ainda circulam pela Ribeira. A primeira linha de bonde, em funcionamento até hoje, foi instalada em 1895.

Aqui e ali despontam as torres das igrejas, mas a primeira impressão é que o Porto tem uma arquitetura sombria e cinzenta, por conta do granito usado para erguer as igrejas e os prédios públicos mais importantes.    

A parte histórica é relativamente pequena e pode ser conhecida num passeio a pé que inclua as principais joias arquitetônicas, como a Catedral da Sé, o Mercado do Bolhão, a Igreja dos Clérigos, a Estação São Bento, o Edifício da Bolsa e a Igreja do Carmo, essa com belíssimas paredes revestidas por azulejos. E foi justamente no Porto que os azulejos deixaram de ornamentar apenas o interior das construções e foram para a fachada das igrejas e das casas portuguesas.

Ao caminhar por esse grandioso conjunto arquitetônico, o visitante tem a sensação de que cada ponto parece competir pela vista panorâmica mais bonita. A melhor delas é obtida desde o alto do Terreiro da Sé.

O calçadão da Rua de Santa Catarina rende uma boa parada para descansar as pernas. Para fazer isso com toda a pompa, aposte no Café Majestic, de estilo art nouveau. Aproveite o pit stop para traçar um caminho no mapa e siga sem pressa pelas praças e ladeiras.

Depois, deixe a lei da gravidade agir e desça até a beira do rio, onde estão os vários restaurantes de comida portuguesa. Eles têm mesas ao ar livre, que ficam próximas aos barcos rabelos ancorados, testemunhas da época em que os barris de vinho eram neles transportados das quintas do Vale do Douro, cerca de 100 km rio acima, até os entrepostos da cidade.

Alguns desses barcos rabelos levam os turistas em passeios rápidos pelo Douro ao som de boas pimbas, como são chamadas as músicas bregas portuguesas, entre as quais se poderiam incluir as velhas canções de Roberto Leal. Se alguém disser que esse é um passeio bem fixe, saiba apenas que quer dizer “bem legal”.

A certa altura, o cheiro de mar anuncia a proximidade com a foz, e dali a embarcação volta à Ribeira, que é mesmo “o” lugar para se estar no Porto.

Próximo à Ponte Dom Luís I há bons restaurantes para provar as especialidades portuguesas, como o tradicional bacalhau à Gomes de Sá, criado na cidade. Tanto é que no número 114 da Rua Muro dos Bacalhoeiros, na beira do rio, uma placa indica a casa onde viveu, no século 19, o comerciante Gomes de Sá, autor da ideia simples – e suculenta – de colocar o bacalhau no forno com batatas, cebolas, ovos e bastante azeite.

Prove a receita no restaurante ao lado da casa, o Farol da Boa Nova, muito embora a especialidade ali seja o bacalhau à Lagareiro, no qual um carnudo filé do peixe é grelhado na brasa e recebe um banho de azeite quente ao final, para então ser servido com batatas assadas. Na espera pelo prato, um vinho do Porto, como não poderia deixar de ser, serve para abrir o apetite.

 

Gaia e o vinho

Na outra margem do Rio Douro fica Vila Nova de Gaia. Basta atravessar a Ponte Dom Luís I para ir de uma cidade à outra. É de lá que se tem a melhor vista do bairro da Ribeira.

Seja do calçadão de Gaia à margem do rio, do mirante do Mosteiro da Serra do Pilar, ao lado da ponte, ou do bondinho, que desde março de 2011 conduz os visitantes a admirar o Porto de novos ângulos.

Vila Nova de Gaia não tem o mesmo brilho do Porto em termos de arquitetura, mas ganhou importância por abrigar, há séculos, os armazéns de vinho do Porto. Ou seja, a bebida produzida nos terraços do Vale do Douro, na realidade, é maturada lá e não na cidade que lhe dá o nome.

É que por conta dos altos impostos cobrados pela administração local, os armazéns acabaram sendo instalados do outro lado do rio. Mas ninguém liga para esse detalhe, até porque só mesmo uma ponte separa o que as duas cidades têm de melhor.

Em Gaia, o grande barato é entornar alguns bons cálices do líquido vermelho-escuro, de sabor adocicado, nas degustações que as bodegas oferecem, como a Sandeman, um dos maiores e mais tradicionais armazéns de vinho: chega a receber cerca de 700 visitantes num fim de semana.

A produtora tem uma bela cave que guarda as barricas e algumas garrafas que maturam o vinho do tipo Vintage desde 1906. Esses são vendidos a preço de relíquia: em torno de € 5 mil a garrafa. Na Taylor’s, a visitação é gratuita e, ao final do tour, é feita a degustação de dois vinhos.

Entre uma bodega e outra, caminha-se sentindo o cheiro de vinho e de madeira. Os armazéns ficam praticamente colados uns aos outros, graças a uma antiga lei instaurada na época do Marquês de Pombal, em 1756, que delimitou a área de instalação das vinícolas. Uma medida benéfica aos turistas, que podem fazer tudo a pé entre uma degustação e outra.

De quebra, tais leis serviram para regulamentar o cultivo de uva, determinando as áreas de plantio, o que seria o embrião do conceito que hoje se conhece como Denominação de Origem Controlada.

 

Sem empurra-empurra

Porto é uma das cidades que mais recebem turistas em Portugal, mas nem de longe tem o fluxo de visitantes de outras cidades européias badaladas. Não há multidões pelas ruas e nem fila de espera nos restaurantes. Até nas boas mesas à margem do Douro é fácil encontrar lugar. Nas ruas da Ribeira, o silêncio noturno durante a semana é quebrado apenas pelo alvoroço das gaivotas, que fazem os ninhos nos telhados.

Apenas nos finais de semana é que o burburinho da madrugada tem vez na Rua Galerias Paris, que fica tomada de gente à porta dos bares, numa saudável confraternização entre portuenses, estudantes universitários e turistas. Para o visitante, é uma agradável surpresa perceber esse astral ainda autêntico, inclusive com pequenas amostras do dia a dia da cidade, como os senhores de boina jogando cartas ou as senhoras de vestido preto escolhendo o bacalhau exposto nas barracas do Mercado do Bolhão.

Esses personagens típicos são informalmente conhecidos como tripeiros (e assim os lisboetas chamam os portuenses). O apelido vem do tempo das grandes navegações, quando as melhores carnes abasteciam os navios que saíam em longas viagens e a população tinha de se virar com as sobras. Além do apelido, daquele tempo ficou outro prato típico, as tripas à moda do Porto, uma espécie de dobradinha com feijão-branco, bacon e linguiça, servida com arroz branco. 

O tripeiro típico é conhecido por ser mais aberto e hospitaleiro quando comparado ao lisboeta. É mais dado a conversas fáceis – taxistas e garçons, por exemplo, adoram bater papo ao perceber que estão diante de brasileiros. O assunto invariavelmente recai sobre parentes ou filhos que vivem no Brasil.

 

Bairrismo e boca suja 

Em compensação, o tripeiro da gema pode ser considerado um sujeito simples, talvez até pouco polido. Palavrões podem sair naturalmente mesmo da boca de senhoras, fruto de certa sinceridade para dizer o que pensa, especialmente se o assunto for política. É que atualmente o tripeiro, injuriado com a grave crise econômica pela qual passa Portugal, anda a bufar com os políticos feito o Zé Povinho, personagem do folclore português sempre em gesto a mandar bananas.

Trata-se de uma gente enraizada ali há muitas gerações e que, por isso, desenvolveu fortes traços de bairrismo, o que já não ocorre tanto em Lisboa, mais cosmopolita e multiétnica. Assim, o tripeiro autêntico bate no peito de orgulho da cidade e não economiza palavras para falar do Rio Douro e da história do vinho.

Se o assunto descambar para o futebol, então, o que se verá são manifestações de puro fanatismo. Especialmente agora que o time local, o Futebol Clube do Porto, vem ganhando importantes confrontos contra o maior rival, o Benfica. Em 2011, a equipe ganhou a Copa da Uefa, bem como o campeonato português de forma invicta, com cinco rodadas de antecedência. O astro do time é brasileiro: o centroavante Hulk, mais um motivo que facilita as conversas.

Para o brasileiro, é inevitável sentir certa familiaridade ao chegar ao Porto. O altar barroco coberto de ouro da Igreja de São Francisco ou as janelas dos casarões podem levar a pensar que se está na mineira Ouro Preto. Os nomes de algumas atrações do centro antigo soam conhecidos, principalmente aos paulistanos: Catedral da Sé, Estação São Bento, Igreja do Carmo... O idioma trata de acentuar ainda mais esse sentimento.

Poder falar português todo o tempo, pedir informações ao garçom, ouvir as explicações dos guias das casas de vinhos, tudo com a mesma fluência dos locais, é um conforto e tanto. Então chegue e vá entrando sem cerimômia, pois o Porto faz qualquer um sentir-se em casa. Mesmo quem nunca foi até lá pode ter a sensação de que está matando a saudade de um velho conhecido.

 

The Yeatman: o novo super hotel do Porto

Inaugurado em setembro de 2010, o The Yeatman (theyeatmanhotel.com), novo hotel de luxo do Porto, elevou – e muito – o nível de conforto da hotelaria da cidade. Além da categoria das acomodações e dos serviços, o Yeatman soube aproveitar a estupenda vista para o centro histórico e o Rio Douro. A sacada das suítes, a varanda do restaurante e até a piscina aquecida do spa deixam o hóspede sempre de cara para um visual incrível. É que o hotel fica em Gaia, na outra margem do rio, bem em frente aos casarões da Ribeira.

O piso de mármore, os móveis finos e os amplos espaços das áreas comuns são detalhes de um projeto que foi todo pensado na temática do vinho. A arquitetura simula os degraus dos vinhedos do Vale do Douro e a decoração dos quartos, em estilo inglês, ficou a cargo de 65 marcas de vinho parceiras. Cada quarto recebe o nome de uma das marcas.

Os pratos gourmet do restaurante, os drinques à base de vinho do Porto do bar e os tratamentos do spa fazem do Yeatman um desses hotéis que não se contentam em ser apenas o local onde o visitante se hospeda, como também o lugar que motiva a viagem. É tanta mordomia que não se tem vontade de sair para nada, mas o Porto espera logo à frente.