Penedo mistura tradição e inovação em meio à natureza

Dec 31, 1969
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Tudo começou quando um aventureiro visionário conseguiu convencer um punhado de famílias a deixar para trás a gélida Finlândia e partir em busca de um eldorado tropical, onde todos pudessem plantar e viver dos frutos da terra.

Era o ano de 1929 e o homem chamava-se Toivo Uuskallio que, após se curar de uma doença grave com tratamento alternativo e dieta vegetariana, decidiu comprar uma fazenda no Brasil e criar uma comunidade agrícola. O país natal, onde as pessoas se alimentavam basicamente de peixe, carne suína e batata, não proporcionava clima e solo para a produção sonhada, mas a fazenda que Toivo havia comprado no pé da Serra da Mantiqueira tampouco era fértil, pois décadas de cultivo de café e criação de gado esgotaram o solo. Eila Helena Ampula, que desembarcou com a primeira leva de imigrantes, conta em seu livro de memórias que na terra só havia capim-gordura. Para piorar, “poucos eram agricultores, e a maioria era constituída por pessoas um tanto malucas”, escreveu Eila. “Eram os hippies dos anos de 1930”, define Marie Louise Göransson, dona do hotel Pequena Suécia.

Persistentes, Toivo e seu grupo passaram anos a plantar árvores frutífera. Quando os colonos estavam prestes a iniciar a exportação de laranjas... estourou a Segunda Guerra Mundial. Nessa altura do campeonato, muitos finlandeses já tinham abandonado o projeto ou se desvirtuado dos princípios naturalistas. “Os ‘bacanais’ acabaram com a proposta vegetariana”, resume Anne Virkkila, filha de um dos pioneiros Sempre que dava, um grupinho escapava para caçar e beber. Também pudera: como domesticar um povo herdeiro dos vikings e louco por vodka? A tal colônia estava mesmo fadada ao fracasso.

Penedo nos dias de hoje

A Casa do Papai Noel, aberta o ano todoHoje não há um único vegetariano remanescente da inusitada empreitada, os restaurantes de comida escandinava apresentam cardápios recheados de carnes e o único evento que junta filhos, netos e alguns pioneiros finlandeses é a dança típica, realizada todos os sábados no Clube Finlândia. Mas é justamente essa mistura irreverente de tradição com inovação que dá charme à hoje simpática Penedo, um bairro do município de Itatiaia, a cinco quilômetros da Dutra, entre Rio e São Paulo.

Sem maiores compromissos históricos, o lugar mescla memórias reais e invencionices chamativas, como a Casa do Papai Noel. Durante o ano todo, o bom velhinho, com trenó, renas, anõezinhos e tudo, aguarda a criançada em sua cabana de madeira – com ar-condicionado ligado a todo vapor. Tão inusitada quanto essa cena é o shopping onde ela acontece, o Pequena Finlândia.

As construções, inspiradas na arquitetura finlandesa, são de uma técnica de alvenaria que simula a madeira, e vendem artesanato, souvenires e comidinhas sem nenhuma origem escandinava. Mesmo assim, é uma delícia andar por ali, atravessar a ponte, ver os peixinhos, comer chocolate caseiro, fazer compras e depois sentar num banco para curtir as fachadas coloridas. Limpo e bem cuidado, o lugar é um mimo. E a molecada, claro, acha ótimo visitar o Papai Noel em pessoa, de segunda a segunda. Na onda do Noel, foi construído depois o shopping dos Gnomos e entraram na moda fadas e bruxinhas.

Lareira e fondue?

Uma caneca de café com vodca, bebida penedenseApesar de estar a míseros 400 metros de altitude, Penedo vende a imagem de turismo serrano, oferece chalés com lareira e serve fondue em muitos restaurantes. A inspiradora proximidade com o maciço de Itatiaia ajuda a criar o clima e até proporciona certo refresco. Mas o fato é que apenas nos dias de inverno dá para tirar o cachecol da mala e, durante boa parte do ano, o chope desce melhor que o vinho tinto.

Com produção própria, a casa do Fritz é uma das melhores pedidas – tem chope claro, escuro, ale, weiss, temperado com limão, light, encorpado...Enfim, tem chope para todos os gostos. Ops, mas Fritz não é nome alemão? Pois é, depois dos finlandeses, outros europeus deram o ar da graça e imprimiram seus sotaques à região, como as suecas Helmi Lindell e Vivi Ramstadf, que abriram, nos anos de 1950 o hotel Chácara das Duas.

Modernas, intelectuais, aventureiras e gays, elas acolhiam hóspedes interessados em massagem, literatura e passeios junto à natureza. Os pais de Marie Louise faziam parte desse seleto publico e, mais tarde, compraram o lugar onde hoje é o Pequena Suécia. Referência em bom gosto e conforto, o hotel fica pertinho do centro, mas bem escondido, ao lado da mata, e oferece um café da manhã formidável, piscina ampla, massagem no Spa exclusivo, leitura sob o gazebo, sauna finlandesa e ducha natural. Nas noites de sábado, jantar à luz de vela e jazz da melhor qualidade, num ambiente intimista. “Marvio Ciribelli, Julio Bittencourt Trio, Dudu Lima e Leo Gandelman são prata da casa. Até Stanley Jordan já tocou aqui no Jazz Village Bistrô”, diz Marie.

Por falar nisso, os agitados finais de semana em Penedo incluem todos os ritmos: além da dança finlandesa no clube, tem MPB e Jazz no D.O.C. e, volta e meia, roda de chorinho no Pé de Canela, o point do momento.

Faça chuva ou sol, as mesinhas estão cheias e o papo rola solto até altas horas. Muitos restaurantes também cultivam o hábito do som ao vivo, como faz todos os sábados o Koskenkorva, cujo nome se inspira na famosa marca de vodka da Finlândia.

Mas é na hora de divulgar o melhor da legítima culinária escandinava que o Koskenkorva supera as expectativas: síntese do moderno, do rústico, do original e do inusitado, a casa é a cara do proprietário, Martti Vartia, cuja vinda para o Brasil nada tem a ver com a colonização e tampouco se relaciona com os remanescentes daquela época.

Ele veio trabalhar no Rio de Janeiro na década de 1970, gostou, ficou e abriu franquias do Koskenkorva pela cidade. “A comida finlandesa é pesada, leva muita carne de porco e gordura; por isso tive que adaptar ao paladar do brasileiro”, conta o dono dessa casa, que serve pratos com arenque, salmão, pepinos em conserva e filé de sardinha. Só não tem carne de rena... Vale dizer que um quilo da iguaria custa 100 euros.

Acostumado à correria carioca, Martti passou a ter tempo de sobra na pacata Penedo e procurou espantar o tédio transformando restos de troncos e raízes em escultura. Logo viu que era bom nisso e não parou mais.

Hoje, é um escultor conceituado, com diversas exposições pelo País. O melhor de sua obra pode ser desfrutado no próprio restaurante, onde mantém um ateliê aberto à visitação.

Culinária e arte

O interior do restaurante Vernissage, PendedoAtrás de um portão em estilo art nouveau e cercada por bromélias, orquídeas, palmeiras e árvores centenárias, uma casa da década de 1960 foi cuidadosamente reformada para abrigar um restaurante que é um achado: o Jardim Secreto. Ali, o chef Fabiano de Almeida prepara um filé mignon grelhado ao molho gorgonzola (com batatas salteadas na manteiga e vagens com bacon) de tirar o chapéu.

Disposto a agradar gregos e troianos, o cardápio abriga massas, risotos, peixes e crustáceos. Entradas surpreendentes como a camaranga (creme de abobora com camarões, leite de coco, manga e catupiry) ou a salada ibiza (mini-hambúrgueres de salmão acompanhados de folhas verdes com molho de iogurte e azeite) despertam deliciosamente o paladar. Da cozinha, aberta e super equipada, também saem as trutas salmonadas mais aplaudidas do pedaço. Programa para uma tarde à beira da piscina ou um romântico jantar à luz de velas.

Com a mesma categoria e comandado por um cozinheiro igualmente carismático, destaca-se o Vernissage, restaurante debruçado sobre o Rio das Pedras e constantemente visitado por dezenas de beija-flores. Franklin Guanabarino, chef e sócio da casa, concebeu tudo de forma a levar o freguês a escutar o murmurar das águas, olhar as borboletas e perder a pressa, “a maior inimiga da boa refeição”.

Entre as variadíssimas opções do cardápio (bacalhau, coelho, polvo, camarão...), optei pelo congro negro grelhado ao molho de limão. De carne branquíssima e saborosa, o peixe veio acompanhado por arroz de tomates secos. Divino. Franklin, um artista plástico que descobriu-se cozinheiro, tem a personagem Babette por musa inspiradora e ama a liberdade: “meu restaurante é vivo, mudo o cardápio toda hora e acato as sugestões dos clientes”. Qual foi minha sugestão? Que ele abra filiais Brasil afora. Ah, sim, aproveite o passeio e veja as obras de Franklin, expostas no salão.

Parece que os moradores de Penedo tem uma natural veia artística – caso de Fabio Genovesi e suas mandalas feitas com elementos da terra – e um amor especial pela arte. Chama a atenção na sede do Hotel Quinta da Mantiqueira, por exemplo, a coleção de antiguidades dos donos, Andréa Madaras e Guto. Raquetes de madeira, moedores de café e até uma geladeira do início do século passado compõem com o despojado e aconchegante ambiente, onde é servido o desjejum. Mas, da janela, uma arte maior se sobressai: o belo maciço de Itatiaia. Onipresente, ele ainda entra pelas varandas dos chalés, alegra a piscina e inspira o cozinheiro que se habilitar a usar a cozinha profissional montada por Andréa a pedido de um hóspede. Com uma receptividade dessas, Penedo se mostra sem segredo.

Um dia no parque

Cachoeira Véu de Noiva, no Parque Nacional de Itatiaia,Ladeada pela face sudeste do maciço de Itatiaia, Penedo tem seu quinhão de Mata Atlântica, com direito a canto dos pássaros e beleza selvagem. As águas, porém, já não descem tão virgens. As Três Cachoeiras, queda mais famosa do lugar, são belas, mas desaconselháveis ao banho; e os córregos que atravessam o centro urbano, idem. Quer dar um mergulho? Suba até a Cachoeira de Deus – de preferência, num dia de semana para evitar a muvuca. O acesso é fácil, o lugar é lindo e a ducha natural, perfeita. Uma pequenina praia de areia faz a festa dos pequenos e o point ainda fica perto de deliciosos restaurantes e do pesque-e-pague Truta Viva (trutaviva.com.br).

No entanto, para curtir águas ainda mais límpidas, agende um passeio para o Parque Nacional de Itatiaia. Na entrada do Parque, distante 13 km de Penedo. A começar pelo instrutivo Centro de Visitantes, um prédio histórico que abriga belíssima exposição fotográfica das primeiras expedições ao pico de Itatiaia, uma galeria com dezenas de animais empalhados (muitos da fauna endêmica), e uma colossal maquete deste que foi o primeiro parque nacional do Brasil, fundado em 1937.

Nela, você consegue visualizar como as montanhas abastecem importantes bacias hidrográficas nos arredores, entende a geografia desse bocado da Mantiqueira, localiza trilhas e conhece o clássico abrigo Rebouças, base para gerações de exploradores que desbravaram o maciço. 

Em todo caso, os atrativos permitidos rendem um ou dois dias de passeio, dependendo da disposição física e do tempo. Célia Vieira, experiente guia, propôs um circuito que começava no setor administrativo – onde uma antiga casa construída com troncos de palmeiras nativas é prova de que “os tempos mudaram” e a consciência ecológica idem –, passava pelo Centro de Visitantes, por duas cachoeiras e fechava com um almoço no tradicional Hotel do Ypê, um dos poucos em funcionamento dentro do Parque.

As trilhas, limpas e seguras, permitem o vislumbre de árvores enfeitadas de bromélias, variados tons de verde da mata, grutas, pedras cobertas de musgo e uma infinidade de bichinhos. O esquilo, que já foi símbolo do Parque, perdeu a vez para um minúsculo sapo, o flamenguinho. Um alerta, talvez, para o visitante prestar mais atenção onde toca, pisa, olha.

Na chegada da esplendorosa cachoeira Véu da Noiva, uma libélula cor de abobora prendeu meu olhar, resgatado depois pela luz filtrada por milhares de gotículas de água, pulverizados pela altura da queda d’água. Um convite ao silêncio, ao deleite da contemplação. Tudo tão lindo e... tão perto. Essa praticidade, porém, torna a parte baixa do Parque acessível até demais: em finais de semana ensolarados, a lotação deixa tudo menos mágico e agradável. Uma boa forma de curtir o lugar mesmo nos feriados é se hospedar dentro do parque.

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