Santa Catarina abriga cicloturismo e muitas atrações radicais

Dec 31, 1969
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Viajar de bicicleta no Brasil ainda é novidade. Mas começou a virar moda num certo pedaço do interior de Santa Catarina conhecido como Vale Europeu. Nessa região, cuja principal cidade de referência é Blumenau, foi criada um rota demarcada para os amantes do cicloturismo: 300 km de percurso que passa por sete pequenas cidades, para ser realizado em sete dias de pedaladas. Tudo bem que percorrer tal distância seria muito fácil e rápido de carro. A ideia de viajar de bicicleta, porém, tem a ver com perceber os lugares de forma mais intensa e completa, entender as distâncias e admirar as mudanças de paisagem, que nesse trecho alterna lagos, bosques de pinheiros, cachoeiras monumentais e curiosas cidadezinhas que guardam a herança da colonização alemã. É uma viagem incomum por um pedaço diferente do Brasil.

O Vale Europeu catarinense se estende ao longo do Rio Itajaí-Açú, que corre pela parte norte do Estado, onde estão plantados dezenas de municípios cuja cultura deixada pelos imigrantes germânicos pode ser vista em toda parte: nas casinhas de arquitetura enxaimel, nos jardins impecáveis, na gente loirinha que anda pelas ruas e nos restaurantes de comida típica. Talvez seja por isso que um dos roteiros mais bem estruturados para o cicloturismo no País tenha surgido justamente nesse lugar, pois viajar de bicicleta é um hábito comum e arraigado na Europa. Alemanha e Suíça, só para citar dois exemplos, contam com dezenas de rotas para ciclistas, trens com vagões especiais para transporte das bicicletas, estacionamentos adaptados e ruas com vias exclusivas.

Preparo para a Jornada

Bicicletaria do Laudim Feltrin, em Rodeio,desde 1976É bem verdade que 300 km de pedala­das não é para qualquer um. Mesmo com o percurso dividido em uma semana são cerca de 4 a 5 horas sobre a bike a cada dia, em média. Trata-se de um roteiro para quem já pratica a atividade com certa frequência. Não precisa ser atleta, mas ter um razoável preparo físico é fundamental, assim como dispor de equipamento adequado: uma boa bicicleta, luvas, capacete e bermuda térmica. Os mais experientes costumam cumprir todo o circuito em até menos tempo do que o recomendado, em quatro ou cinco dias.

O roteiro, oficialmente implantado em 2006, está demarcado com placas no caminho, que é totalmente rural. Inclui apenas estradas de terra e ruas secundárias, não passa por rodovias. Começa em Timbó, a 30 km de Blumenau, e segue em direção de Pomero­de, Indaial, Rodeio, Doutor Pedrinho, Rio dos Cedros e Palmeiras, até terminar no ponto de partida, em Timbó. A hospedagem é feita em pousadas e hotéis em cada uma dessas cidades.

A rotina de quem encara a aventura, no entanto, é bem tranquila. Uma sema­na, tempo sugerido para completá-lo, dá e sobra para pedalar com calma e ainda parar nas principais atrações do trajeto, que inclui as fabulosas Cachoeiras do Zinco e do Paulista, a Rota do Enxaimel, em Pomerode, que margeia meia centena de casas com típica arquitetura trazida pelos imigrantes, além de restaurantes de gastronomia alemã e italiana. O ponto alto é em Apiúna, onde é feito o rafting no Rio Itajaí-Açú, um dos melhores do Brasil para a atividade, com trechos para diversos níveis de dificuldade, desde o básico, para quem nunca entrou num bote inflável, a outros bem mais radicais.

A largada

Timbó, a 30 km de Blumenau, ponto de partida e chegada do roteiro de cicloturismoA viagem começa ao lado da ponte sobre o Rio Benedito, que corta Timbó. Há um quiosque de serviço turístico onde o ciclista pega o kit de informações sobre o trajeto. Custa R$ 10 e inclui uma cartilha que traz mapas, descritivo de cada trecho dia a dia, com a indicação das principais atrações do caminho, e até um engenhoso gráfico de plano altimétrico que mostra a elevação do terreno de acordo com a distância percorrida, para que o ciclista tenha a exata noção das subidas que irá enfrentar.

Antes, a primeira carimbada no “passa­porte” fornecido no kit. Cada etapa completada vale um novo carimbo, a cargo dos hotéis credenciados. Ao final, o passaporte é trocado por um “certificado”, elegante, impresso em papel cartão, atestando a conclusão do cicloturismo no Vale Europeu – uma espécie de troféu pelo esforço empreendido.

Pomerode

Moradora de Pomerode, dona Ilze Wachholz serve refeições típicas aos turistasA primeira etapa da viagem leva a Pomerode, cidade mais visitada e famosa da região, tão alemã quanto um prato de chucrute. Basta alguns minutos para perceber que pelas ruas de nomes impronunciáveis circulam muito mais loirinhos e loirinhas do que se poderia supor em território nacional. Todo mundo por ali fa­la alemão, pois em Pomerode o português é segunda língua. O artesanato local também tem a cara germânica (delicadas casinhas e alegres girassóis de madeira) e das confeitarias, em especial a Torten Paradies, saem fantásticas cucas, espécie de torta feita com massa de pão e cobertura doce.

Também é fácil notar como a bicicleta faz parte da vida dos moradores de Pomerode. Há mais bikes circulando pela ciclovia da rua principal do que carros. Nos portões das fábricas, como a alemã Bosch, o que se vê são centenas de magrelas saindo às 6 horas da tarde. Ninguém quer saber de ônibus. Até porque as distâncias são curtas numa cidade de apenas 27 mil habitantes. E não apenas em Pomerode é assim. A tradição do ciclismo é um dos traços da cultura em diversos municípios do Vale Europeu.

A maior atração em Pomerode é a tal  Ro­­ta do Enxaimel, uma estrada de terra de 8 km repleta de casas de arquitetura típica alemã, construídas pelos bisavós dos atuais moradores. Numa delas mora dona Cecília Radünz, 77 anos, que desde que se casou, na juventude, vive ali com a família. As fotos do casamento enfeitam as paredes da modesta habitação. Difícil é puxar conversa com a simpática senhora, pois dona Radünz, apesar de nascida no Brasil, mal fala português, assim como muitos outros descendentes de imigrantes em Pomerode. Em outra casa, um pouco mais à frente, adaptada como pequena pousada, dona Ilze Wachholz recebe os visitantes para um café da tarde com a mesa coberta por especialidades ensinadas pela avó, como biscoito de orelha de gato, a cuca de farofa e queijo colonial, que eles chamam de krauterkaese.

Rafting e cachoeiras

Apiúna - Rafting Rio Itajaí-AçúApós passar por Indaial, no terceiro dia da viagem, a sugestão é fazer um desvio rumo a Apiúna e trocar a bicicleta pelo bote inflável que desce as corredeiras do Rio Itajaí-Açú. A Agência Ativa (ativarafting.com.br) oferece o “passeio” de rafting em diferentes trechos do rio, de acordo com o grau de adrenalina que o candidato quiser experimentar. Há trechos voltados para iniciantes e outro com corredeiras nível 5 (numa escala que vai até 5, ou seja, radical mesmo). Os esportes de aventura em Apiúna também incluem trilhas rumo a mirantes e o rapel na Cachoeira do Baú.

Já entre Rodeio e Doutor Pedrinho está o trecho de maior penitência: uma subida de 8 km cuja recompensa é a parada na Cachoeira do Zinco. Mas para chegar até a cachoeira é preciso fazer um desvio do roteiro oficial, seguindo por uma estrada de outros 8 km. Vale a pena. De longe, ainda na estrada, dá para ver a imensa queda d’água no meio da mata, despencando dentro do cânion de 70 metros de altura. A Cachoeira do Zinco é tão bela quanto a Cachoeira do Caracol, em Canela (RS), só que bem menos famosa.

É possível pernoitar ali perto, na Pousada Campo do Zinco. Aliás, essa é a melhor hospedagem de todo o roteiro, ainda que não esteja no circuito oficial. Não importa. Em vez de parar em Rodeio, estique mais um pouco até lá (são mais 17 km) ou então tire um dia a mais antes de seguir para Doutor Pedrinho. Assim sobrará mais tempo para curtir a cachoeira, que é realmente espetacular, pegando a trilha para conhecê-la por baixo, ao pé da queda, e ainda aproveitar a pousada. Os donos são um casal de alemães, Egom e Margarethe Koprowski. Eles instalaram a hospedaria no agradável sítio da família, entre lagos e colinas verdes, e a decoraram com charme e bom gosto. Há piscina, a comida é ótima e a prosa com os proprietários melhor ainda. Nem dá vontade de ir embora.

Entre Doutor Pedrinho e Rio dos Cedros, as paradas acontecem na Cachoeira Véu de Noiva – com 63 metros de queda e uma piscina natural perfeita para um mergulho – e na Cachoeira do Paulista, de 42 metros de altura. No final desse trecho, os ciclistas chegam na chamada Região dos Lagos, na qual a estrada, cercada de araucárias nesse ponto, contorna uma bela sequência de lagos e morros.

Marreco com chucrute

O marreco à moda alemã, prato típico da regiãoPedalar por cerca de quatro horas por dia dá uma fome danada. Sendo assim, o negócio à noite é sair para jantar nos bons restaurantes das cidades do Vale Europeu. É a hora de provar a boa gastronomia típica, que não tem apenas as especialidades dos pratos alemães, mas também a italia­na, dos colonos que vieram depois, oriun­dos da região do Trento, e que também deixaram fortes marcas na cultura local.

Destaque para os pratos alemães do Wundervald, as massas do La Spezia e as tortas do Torten Paradies, todos em Pomerode. E para o imperdível restaurante Thapyoka, em Timbó, que tem cardápio variado e torres de chope Borck, que mantêm três litros da bebida gelada por horas e horas (apesar de um chope tão gostoso não durar tanto tempo assim à mesa).

O Vale Europeu, aliás, goza de fama nacional quando o assunto é chope. Há diversas pequenas cervejarias artesanais na região que fabricam o chope seguindo a lei da pureza alemã de 1516, que determina que a bebida seja produzida apenas com água, malte de cevada e lúpulo, sem qualquer outro ingrediente ou conservante químico. O resultado é um chope encorpado e de sabor mais amargo.

Para os apreciadores de uma loira gelada (mas não tão gelada assim, pois, para os alemães, a temperatura baixa demais tira o gosto da bebida) não há lugar melhor para beber. Vale provar o chope nos bares das fábricas da Borck, em Timbó; da Heimat, em Indaial; e da Schorstein, em Pomerode. Se achar que cerveja não combina com ciclismo, então fique com os vinhos da San Michele, uma vinícola sediada em Rodeio, que produz ótimos espumantes e um surpreendente tinto Teroldego.

Sorte que não há razão para se preocupar com dieta, pois o dia seguinte sempre é longo o bastante para consumir qualquer excesso de calorias adquirido na última refeição. E comer sem culpa é apenas mais um prazer que esse tipo de viagem proporciona. Os outros, como o bem-estar da atividade física, o exercício da contemplação e a interação com a bela natureza desse pedaço de Santa Catarina, só quem  faz o roteiro pode entender melhor.

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