Serras Catarinenses ostentam o inverno mais frio do país

Dec 31, 1969
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Acontece todo inverno. Basta a previsão do tempo nos telejornais apontar a possibilidade de cair neve nas cidades da Serra Catarinense que os telefones não param de tocar nas pousadas e os carros a chegar em Urubici, São Joaquim e Bom Jardim da Serra. Essas três cidades plantadas no alto das montanhas do Sul do Brasil ostentam o inverno mais frio do país com temperaturas que podem cair facilmente a diversos graus abaixo de zero. A neve é um fenômeno típico da estação e os visitantes sempre chegam ansiosos em ver os floquinhos brancos caindo dos céus.

Os moradores de Urubici gostam de alimentar essa esperança nos turistas dizendo que antigamente, nas décadas de 1950 e 60, a neve às vezes era tanta que chegava a causar problemas bloqueando estradas e cobrindo as pastagens do gado. Atualmente, porém, isso virou história, no mínimo, um charme local cada vez mais raro. No ano passado foram duas ocorrências fracas em pontos inabitados nos campos de cima da serra. A última nevasca mesmo aconteceu em 2002. Por isso, a estatística não é favorável para quem pensa em ir às cidades da Serra Catarinense na única intenção topar com uma paisagem digna dos Alpes suiços.

O que também não é motivo para ninguém ir embora frustrado. Afinal, ali está uma região que, com ou sem neve, reserva belezas que não existem em nenhum outro lugar, desenhadas numa geografia de canions vertiginosos, recoberta por florestas de araucárias, adornada com cachoeiras monumentais, em boa parte abrigadas nos limites do Parque Nacional de São Joaquim. É um lugar para curtir os prazeres do frio, que não são poucos, bem acomodado numa simpática pousadinha de montanha, de preferência aquecida por sistema de calefação; como também para conhecer um Brasil diferente, onde vive uma gente loirinha e de bom coração, que preserva no dia-a-dia a cultura gauchesca, traduzida no gosto pelo chimarrão e pelo amor a lida campeira. Para aproveitar bem a viagem é importante estar de carro para fazer os passeios e poder pular de uma cidade para outra. Em menos de uma semana dá para visitar os principais pontos.

Se serve de consolo, as geadas são garantidas, quando o frio congela o orvalho da madrugada, os riachos amanhecem congelados e as plantações cobertas por uma fina camada branca. Nas estradas que permeiam a serra, placas alertam os motoristas a todo instante: “cuidado gelo na pista”.

Urubici

Trilhas ao redor de UrubiciQuem vem de Florianópolis avista a primeira dessas placas que só existem nesse pedaço do Brasil logo no caminho para Urubici, na SC-430. A cidade, a 170 km da capital catarinense, é o principal ponto de apoio para explorar a natureza do Parque Nacional de São Joaquim. Cerca de 70% da área do parque está dentro dos limites do município, e não em São Joaquim, que fica a 62 km de distância. É que em 1961, quando a área de preservação foi criada para proteger as florestas de araucárias, na época sob sério risco de extinção devido a um desenfreado ciclo de madeira, Urubici ainda não era emancipada politicamente da vizinha, daí a confusão com os nomes. Nas proximidades, estão os dois principais cartões-postais da Serra Catarinense: a Cachoeira do Avencal, com cem metros de queda, e a Pedra Furada.

Urubici é uma cidade minúscula, com cerca de dez mil habitantes. Está assentada sob terreno plano ao longo do Vale do Rio Canoas e completamente cercada por montanhas, que a obrigaram a um traçado urbanístico em forma de salame colonial, estreito e comprido. Resume-se praticamente a uma única avenida principal, que segue tranquila atravessando a cidade toda. O comércio modesto em ambos os lados em nada aparenta o de um destino com tamanho potencial ecoturístico. Não há qualquer sinal do charme que viraram marcas de outras cidades da Serra Geral, mas do lado gaúcho, como Gramado ou Canela. Com exceção da bela igreja matriz não há nada que salte aos olhos em Urubici.

Mas há um slogan que chama a atenção, conforme atesta outra curiosa placa fixada entre as diversas lombadas eletrônicas da avenida principal: “Urubici, onde o Brasil é mais frio”. A cidade orgulha-se do recorde de baixa temperatura já registrada no país, -17,8ºC, ocorrida numa gélida madrugada de 1996 no alto do Morro da Igreja, num dos pontos mais altos da Serra Catarinense, a 1822 metros acima do nível do mar. Recorde assinalado pelo termômetro do Cindacta, o centro de controle de tráfego aéreo da aeronáutica, instalado lá em cima.

Morro da Igreja - Serra CatarinenseSubir ao Morro da Igreja é um passeio que ninguém perde. Desde o centro são cerca de 40 minutos de carro. O caminho cruza a zona rural de Urubici, pontuado por plantações e casas de madeira coloridas de chaminés fumegantes. A cidade é conhecida como a capital das hortaliças. Hortas de tomate e beterraba integram-se a paisagem do vale, assim como os pomares de maça, que se adaptaram bem ao clima frio local.

Na subida da serra, a temperatura vai caindo um pouco a cada curva. Lá de cima, no final do caminho, em frente ao portão do Cindacta, pode-se ver a Pedra Furada, uma enorme rocha em formato de arco no topo da montanha ao lado. É bem comum acontecer o que os catarinenses chamam de “viração”, um denso nevoeiro que chega devagar e vai se juntando na bordas das montanhas até encobrir toda a vista, como uma cortina que se fecha para o espetáculo do dia seguinte. O fenômeno acontece quase todos os finais de tarde, devido o encontro dos ventos úmidos do litoral, que está a cerca de 100 quilômetros dos paredões da Serra Geral, com o ar frio do alto das montanhas.

O Morro da Igreja é o ponto mais gelado do país. A média de temperatura anual ali é de 7ºC, ou seja, não é quente nem no verão. E agora que o inverno se aproxima, o frio e o vento sul, que joga a sensação térmica a muitos graus abaixo de zero, obriga os militares do Cindacta a proteger-se até o último fio de cabelo enquanto imaginam, entrincheirados dentro da guarita, se a neve virá nesse ano.  

Outro passeio imperdível é percorrer a Serra do Corvo Branco, que é atravessada por uma estrada de 40 km entre Urubici e Grão Pará. O percurso, com fortes subidas e curvas fechadas, ora junto dos precipícios ora passando entre fendas de até 90 metros de altura escavadas nas rochas, é uma das melhores maneiras de vislumbrar as paisagens impressionantes da serra. Trata-se de uma obra de engenharia invejável, que deve mérito ao ex-prefeito da cidade, Natal Zilli.

A despeito de opinião pessimistas sobre a viabilidade do projeto, Zilli empenhou-se de tal forma na execução da estrada que chegou a trabalhar como operário na sua construção, para cumprir o expediente de prefeito apenas à tarde. Um sinal da disposição cabocla que se arraigou, ao longo dos séculos, na alma dessa gente que habita o alto da serra no Sul do Brasil. Gente que aprendeu a enfrentar as adversidades impostas pelo frio e pelo isolamento das montanhas naquelas latitudes.

A Cachoeira do Avencal

Cachoeira do Avencal - UrubiciCom tantas montanhas e nascentes de água, cachoeiras brotam às centenas na região de Urubici. São tantas que nem se sabe o número exato delas. A mais famosa, e de fácil acesso, a apenas 6 km da cidade, é a Cachoeira do Avencal, que despenca dentro de um canion a cem metros de altura. Pode ser vista de um mirante na parte de cima, como também lá de baixo, ao final de trilha curta de 15 minutos. Nem precisa guia para chegar. Basta perguntar que qualquer um indica o caminho.

Bastante conhecida também, com acesso fácil de carro, é a Cachoeira do  Véu de Noiva, que fica no caminho para o Morro da Igreja. É uma parada obrigatória no retorno do passeio à Pedra Furada, especialmente se for hora do almoço, já que o restaurante instalado ao pé da cascata serve delícias da culinária regional, como o Entrevero de Pinhão, uma espécie de picadinho de carne, complementado com pimentão, tomate, cebola e, claro, o pinhão, a semente da araucária, cuja temporada de colheita começou no dia 15 de abril e segue por todo o inverno.

Para conhecer outras paisagens, porém, como o Morro da Cruz, o Campo dos Padres, o canion do Espraiado ou os recantos mais escondidos pelos paredões da Serra do Corvo Branco, será preciso procurar um bom guia. E quem conhece como ninguém cada palmo de chão por ali é o polivalente Juan Rivas, guia de montanha, fotógrafo e proprietário da pousada Refúgio Rio Canoas. É dele, inclusive, algumas das fotos que ilustram essa reportagem. Juan é uruguaio, um ex-diretor de arte de agência de publicidade, que veio à Urubuci pela primeira vez há 20 anos com intuito de conhecer a nascente do Rio Canoas, principal formador do Rio Uruguai, de onde traz boas recordações de infância. Em 1997, comprou terras próximo a Serra do Corvo Branco e construiu uma casa, anexa à uma pousada e um albergue, que administra com a esposa Gisele.

O Refúgio Rio Canoas fica num local afastado e cercado de verde, a 50 minutos de Urubici. Tem uma atmosfera agradável de cabana de montanha, com quartos aconchegantes, uma bonita cozinha aberta e com uma grande mesa para um café da manhã coletivo, o que favorece uma interação rápida e natural entre os hóspedes. Instalada em local estratatégico, muitos trekkings partem da própria pousada. Há opções de passeios de um dia até uma semana inteira, com acampamento selvagem, além de esportes de aventura, como a canoagem no Rio Canoas, mountain-bike e rapel.

São Joaquim

Vinícolas - São JoaquimSe Urubici gaba-se pelos –17,8ºC registrado lá no alto do Morro da Igreja, São Joaquim ostenta o título de cidade mais fria do Brasil. Por estar a 1.300 metros acima do nível do mar (Urubici fica a 900 metros), a chance no inverno de nevar em plena área urbana é a maior entre todas as cidades da serra catarinense. É de lá que os repórteres da televisão costumam aparecer ao vivo, vestidos de luvas e cachecol, quando o fenômeno acontece enquanto e a molecada já está brincando de fazer bonecos de neve gorduchos em plena rua.

Em São Joaquim não faz calor nem no verão, que por ali não dura mais do que dois meses. No outono, entre março e maio, a temperatura raramente vai acima dos 24ºC e pode chegar a 2ºC negativos. Essa é justamente a temporada da colheita da maçã, principal atividade econômica do munipício. A margem das estradinhas de terra que conduzem à zona rural há intermináveis pomares da fruta. Tanto que a cidade organiza até a uma festa dedicada a ela, a Festa da Maçã, que acontece a cada dois anos sempre no final de abril.

Para os visitantes, além do apelo do frio, vale conhecer a vinícola Villa Francioni (villafrancioni.com.br), que tem uma sede belíssima, com sala de degustação dotada de janelões bem de frente aos parreirais cultivados no chamado método espaldeira, semelhante ao adotado por todas as vinícolas mundo afora que prezam pela qualidade do vinho. A primeira safra da Villa Francioni aconteceu em 2004. A enóloga Raquel Bondan destacou o branco Chardonnay, que já chegou a ganhar prêmios como o melhor da categoria em 2006, assim como o Villa Francioni Tinto, este um corte de 4 uvas , que é a menina dos olhos de toda a equipe técnica da vinícola catarinense, localizada ao lado da estrada para Lages.

No mesmo dia ainda sobra tempo para conhecer o Snow Valley, um complexo, a 6 km do centro de São Joaquim, com tirolesas, circuito de arvorismo e uma trilha de meia hora que passa por quatro cachoeiras .

Serra do Rio do RastroJá na pequena Bom Jardim todo mundo só fala da Serra do Rio do Rastro, ou melhor da estrada que corta a tal serra. Estradas, como se sabe, servem apenas para ligar lugares. Mas não nesse caso, pois essa estrada em especial parece ter sido concebida apenas para o deleite de uma travessia esplendorosa. Ela é a própria atração em si. Oficialmente chamada de SC-438, tem o asfalto que começa em Tubarão, no litoral, e segue até Lages, no planalto catarinense. Mas a fama toda recai nos 10 km entre Bom Jardim e Lauro Müller, que é talvez o trecho de rodovia mais cênico do Brasil.

Do mirante, logo no começo da descida, tem-se a vista panorâmica do zigue-zague da estradinha cortando o paredão de um canion de 1.460 metros de altura. Em dias de céu limpo dá para ver o mar a 100 quilômetros de distância. Para quem gosta de dirigir, percorrer esse trajeto de carro é um grande prazer. Algumas curvas, porém, são tão fechadas que os caminhões precisam parar e manobrar. Há diversos pontos para encostar o carro ao longo da descida. Em 2002 a pista ganhou um projeto de iluminação, com cabos subterrâneos e energia proveniente de uma usina eólica experimental instalado no alto da serra, para garantir segurança nas travessias durante serrações, e que, de quebra, a tornou ainda mais fotogênica e impressionante.

Na volta do passeio a Serra do Rio do Rastro a parada para almoço só pode ser no restaurante Cascata, o melhor de Bom Jardim, que fica ao lado de uma bela cachoeira, uma das 35 que existem nas proximidades da cidade e que lhe justificam o apelido de “capital das águas”.

Quem tiver mais tempo pode reservar ao menos uma manhã para conhecer alguns dos canions que desabam nas encostas daquele trecho da Serra Geral, a mesma, aliás, que mais ao sul irá formar os canions de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. Há vários deles por perto, como o Laranjeiras, do Funil e da Ronda. Mas não há placas indicativas e até os próprios moradores não sabem dar informação. Será preciso contratar um guia no quiosque da secretaria de turismo se quiser chegar a eles. O mais famoso é o canion das Laranjeiras, a 12 km do centro de Bom Jardim, dentro de uma propriedade particular, a Fazenda Santa Cândida, o fim da linha para os carros e início de uma trilha de meia hora até a borda do precipício.

Pena que não há muito o que ver na cidade, além das típicas lojinhas de produtos coloniais que vendem queijos, doces, maçãs e salames de até um metro de comprimento. Os produtos são fabricados nas antigas fazendas da região, algumas delas centenárias, surgidas na época dos tropeiros que desde o século 19 passavam por ali levando gado e mercadorias do planalto para o litoral. Foram eles, aliás, que abriram a antiga picada desde Bom Jardim a Lauro Müller, que décadas mais tarde daria origem a estrada da Serra do Rio do Rastro. Na perigosa descida pelas encostas, aqueles bravos viajantes do passado deixavam os animais ir na frente para depois seguir o rastro dos bichos, daí o nome do caminho que hoje deixa os viajantes do presente encantados com a beleza da Serra Catarinense.

Inscrições rupestres

Curiosas inscrições rupestresNo Morro do Avencal, em Urubici (bem ao lado da estrada para São Joaquim), há algumas inscrições rupestres curiosas: desenhos em formas geométricas e até um rosto  gravados na pedra. Arqueologistas asseguram que são inscrições feitas por povos indígenas há cerca de 4 mil anos. Uma lenda local, porém, dá conta que seriam códigos secretos deixados por Cavaleiros da Ordem dos Templários, os defensores do Santo Graal, que sabe-se lá como, teriam chegado por ali. A cada inverno gelado de Urubici, a história se perpetua um pouco mais em cada rodinha de chimarrão que se forma em torno dos fogões à lenha das pousadas.

 

4x4 no Parque Nacional de São Joaquim

Parque nacionalQuem gosta de natureza mas não quer suar a camisa nas trilhas pode conhecer as paisagens do Parque Nacional de São Joaquim a bordo de um jipe 4x4. Uma estrada de terra de 50 km atravessa a área do parque entre Urubici e Bom Jardim da Serra. O caminho todo é praticamente um extenso mirante, passa pelos campos de cima da serra e por florestas de araucárias milenares, que sobreviveram ao ciclo de extração de madeira dos anos de 1950. Apesar dos muitos sacolejos, o passeio de um dia inteiro garante uma boa noção da geografia e da flora da serra.

Quando se fala em Serra Geral, as referências mais conhecidas são as cidades de Gramado e Canela, no Rio Grande do Sul. Mas as montanhas que compõem a principal serra do Sul do Brasil estendem-se também pelos territórios de Santa Catarina e reservam surpresas tão – ou mais – belas quanto do lado gaúcho, ainda que bem menos conhecidas. É o caso do Parque Nacional de São Joaquim, que abriga um espetacular conjunto de canions, florestas de araucárias e cachoeiras monumentais.

Os telejornais do país costumam lembrar da região em todo inverno, mas por outro motivo: a neve. Basta os meteorologistas apontarem para a possibilidade de floquinhos brancos caindo do céu que os telefones das pousadas não páram de tocar nas cidades de Urubici, São Joaquim e Bom Jardim da Serra, as principais do alto da Serra Catarinense.

A região fez da neve sua grande propaganda turística. Os visitantes chegam sempre com a esperança de acordar com os campos cobertos de branco. A neve, porém, é apenas um charme local, cada mais raro por sinal. No inverno passado foram duas ocorrências. A última nevasca mais forte foi em 2002. Moradores de Urubici dizem que antigamente, nas décadas de 1950 e 60, a neve era tanta que chegava a causar problemas, bloqueando estradas e cobrindo as pastagens do gado. Mesmo assim, a chance de nevar ainda existe nas madrugadas mais gélidas do inverno, fenômeno aguardado com ansiedade. Afinal, quando acontece, os turistas chegam em peso. Com ou sem neve, porém, a região tem belezas que não existem em nenhum outro lugar do Brasil.

O Parque Nacional de São Joaquim foi criado para proteger as florestas de araucárias, árvore que esteve à beira da extinção na década de 1960 com um insano ciclo de madeira que consumiu quase tudo. As serrarias representam uma importante fatia da economia das cidades da Serra Geral, e não só do lado catarinense. Com a proibição da extração, os munícipios entraram em decadência e uma alternativa encontrada foi implantar o reflorestamento de pinus, pinheiro que se adaptou bem ao clima fio. Urubici já teve suas montanhas tomadas pelas matas de araucárias. Hoje há apenas copas dispersas entre os campos de hortaliças, principal fonte de renda da população.

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