Inverno na Serra Catarinense é o mais frio do país

Dec 31, 1969
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Ao fato de ser a região mais fria do Brasil – e conseqüentemente a única onde existe a possibili­dade real de ocorrência de neve no inverno – é a grande propa­ganda da Serra Catarinense. Mas está longe de ser o único chamariz do pedaço, onde cânions profundos, parques ecológicos com uma série de atividades de aventura, fazendas que dão aos visitantes a oportunidade de acompanhar o trabalho no campo, muitos pomares de maçã e até estradas em meio a muito verde, que cortam a serra num ziguezague cons­tante, também compõem o atraente cartão de visitas dessa região formada por cidades como Urubici, São Joaquim, Lages e Bom Jardim da Serra, na porção sudoeste do Estado.

Com todos esses visuais esplendorosos que se delineiam de maneira diferente ao longo do ano, a Serra Catarinense – também chamada de Planalto Serrano – é uma opção para além do inverno. É inclusive uma boa para o começo de primavera (ao menos de acordo com o ca­lendário), quando os termômetros já regis­tram um aumento de temperatura na região, mas também não decepciona quem pretende se aquecer, à noite, junto de uma lareira ou do tradicional fogo de chão.

Diante dessa variedade de roteiros e de um clima que nem os meteorologistas conseguem prever direito, duas dicas são preciosas para quem vai encarar um passeio por lá. Além de roupas esportivas e tênis para explorar a natureza, é sempre bom levar um casaco mais quentinho, porque sem mais nem menos o ar quente do litoral se encontra com o ar mais fresco da serra e causa a “viração” – ou o “nada”, como também dizem os nativos –, quando uma espessa camada de neblina domina a paisagem, impedindo que se enxerge mesmo a uma curta distância, podendo também trazer o frio.

O outro toque é para quando for esco­lher os passeios a serem feitos, que certamente estarão em cidades diferentes, mas que ficam pró­ximas entre si. Assim, escolha até duas delas para servir como base e faça deslocamentos curtos durante o dia.

Ziguezague na serra

Rio do Rastro Eco Resort. Serra Catarinense, Santa CatarinaUm ótimo aperitivo para fazer aflorar o encantamento pela região é ter os arredores de Bom Jardim da Serra, a 245 km de Florianópolis, como destino. A partir de Floripa, em carro próprio ou alugado, ou num transfer contratado, há alguns caminhos que podem ser feitos (como pegar a BR-101 e seguir rumo a Tubarão, bem como utilizar a BR-282 em direção a Urubici), com uma grande estrela aparecendo na altura do município de Lauro Müller, quando já se utiliza a SC-438: a Serra do Rio do Rastro, cortada por uma bela e sinuosa estrada de 15 km, erguida a 1.460 metros de altitude e toda ladeada de verde.

Na estrada – surgida em 1870 como uma picada de mulas (que transportavam para a região produtos desembarcados no porto de Laguna) e, sem dúvida, uma das mais bonitas do Brasil –, 102 curvas precisam ser vencidas para que se alcance Bom Jardim da Serra, o que leva um bocadinho de tempo. Aproveite que o percurso tem de ser feito mais calmamente e pare nos mirantes da serra.

Um deles está perto do Rio do Rastro Eco Resort, do qual é possível apreciar todo o zigue-zague da estrada, que parece ínfima em meio à mata nativa, sem falar do mar, que está a cerca de 100 km desse ponto da serra e só fica realmente nítido em dias bem claros. Para quem está no eco resort, esse visual incrível também pode ser facilmente conferido à noite, já que a estrada recebeu um projeto de iluminação em 2002, que utiliza energia eólica proveniente de moinhos de vento instalados na região.

E o que é o Rio do Rastro Eco Resort? É uma das mais sofisticadas opções de hospedagem  na Serra Catarinense, que já recebeu até o ator escocês Ewan McGregor, astro de filmes como Trainspotting, Moulin Rouge e a nova trilogia de Guerra nas Estrelas.

Além de desfrutar de chalés independentes entre si, de frente para um lago – e equipados com sistema de calefação, cama king size, internet wi-fi, TV e frigobar, enquanto alguns têm, ainda, lareira e jacuzzi –, o hóspede pode partir para vários tours organizados pelo próprio pessoal do hotel, como trilhas, cavalgadas e passeios em veículo 4x4.

As atividades levam a uma das principais atrações da Serra Catarinense, os cânions, paredões extensos e profundos formados há mi­lhões de anos pelo efeito de sucessivos terremotos e posteriormente esculpidos, também ao longo de milhares de anos, pela força das águas. Um deles está perto do eco resort, o Cânion da Ronda, alcançado num percurso de meia hora no lombo do cavalo e uma ótima pedida para ver os últimos raios de sol.

Outro cânion famoso é o das Laranjeiras, com um visual de babar. Ele fica bem longe do eco resort, demandando ao turista se le­vantar junto com as galinhas, sacolejar dentro de uma caminhonete 4x4 – atravessando uma parte do Parque Nacional de São Joaquim – e ainda caminhar uns 40 minutos para chegar lá no horário ideal para apreciar sua beleza em plenitude. Por isso mesmo, só encare o programa se o sol der sinais de que vai aparecer.

Bom, para quem tiver insistido e o astro-rei não colaborar, resta se fartar com o café da fazenda Santa Cândida, ponto de partida da caminhada. Queijo fresco, pães, bolos e biscoitos caseiros e aquele cafezinho passado na hora saem sem parar da cozinha de dona Sirlei, que fica toda satisfeita com o “ataque” dos visitantes às guloseimas do desjejum, que por lá ganha o nome de café com mistura.

Causos e chimarrão

Danças típicas com o churrasco assado no fogo de chão. Serra Catarinense, SCEssa gente hospitaleira, que nesse pedaço catarinense absorveu a cultura gauchesca – incluindo o hábito de tomar chimarrão, o gosto pela churrasco e o uso de bombacha e lenço no pescoço pelos homens, entre outros –, também faz parte dos atrativos da serra. Não à toa, muitos turistas visitam as fazendas locais para também tomar chimarrão e ouvir “causos”, como os contados por Anastácio Batista, de 64 anos, há 21 capataz da Fazenda Bino.

Tio Anastácio, como é chamado, não conta histórias de “pescador” nem piada extravagante. Simplesmente fala de sua vida matuta e encanta com sua simpatia e ingenuidade, como quando relata que nunca foi à praia. “O dia que eu for vai ser um fiasco. Já imaginou um homem que só anda de bombacha usando calção de praia?"

Se a praia é um tabu, usar terno também era, até que foi convidado para ser padrinho. Vestiu a indumentária naquela ocasião – e também para se casar. Depois, não mais. Calça jeans também nunca usou. “Meu negócio é bombacha. Capaz de eu sentir vertigem se colocar outra coisa”, emenda o capataz de riso farto, neto de bugres (índios). E que todo ano carrega a bandeira de Santa Catarina na puxada Cavalgada de Aparados da Serra, em que uma comitiva de cavaleiros tem de vencer 280 km, em pleno inverno serrano, para chegar ao lado gaúcho dos cânions.

De volta ao Rio do Rastro Eco Resort, ainda há muita coisa boa para fazer, como curtir o Casarão, um anexo que concentra a sala de TV e DVD, salão de jogos, piscina coberta e aquecida e, delícia pura, uma jacuzzi, também aquecida e ao ar livre, onde a boa é pedir uma taça de vinho, se estiver um dia mais fresquinho, ou um coquetel, caso faça calor, e “viajar” na beleza dos arredores.

À noite, o ponto de encontro dos hóspedes, pelo menos uma vez durante a estada, é o rústico Galpão Crioulo que, como está escrito numa placa, é o lugar onde “se reúnem caçadores, pescadores e outros mentirosos” para uma noite tipicamente gaúcha.

Ou seja, rolam mais “causos”, homens e crianças tentando dançar a chula – na qual se sapa­teia bem próximo a uma lança estendida no chão, sem poder encostar nela – e, claro, o aguardado churrasco no fogo de chão, em que o espeto de carne é fincado ao redor de uma fogueira. Tudo isso ao som de música regio­nal executada ao vivo.

Mais cânions e cachoeiras

A Cachoeira do Avencal. Serra Catarinense, Santa CatarinaSe Bom Jardim da Serra se revelou uma agradável surpresa, espere só até chegar a São Joaquim e Urubici, as mais famosas cidades da Serra Catarinense e também as mais frias. A primeira é a terra da maçã, responsável por boa parte da produção da região, anualmente na casa das 350 mil toneladas da fruta, cujos pomares, em muitas propriedades, podem ser vi­sitados. Lá, em 2007, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) re­gistrou -5ºC, o que não ocorria desde 1968.

Já em Urubici, em 1996, foi registrada a tempe­ratura mais baixa até hoje aferida no Brasil (-17,8ºC). Esse recorde nacional foi re­gistrado no Morro da Igreja, a 1.828 metros de altitude, um dos pontos mais altos da região Sul – e que, localizado a 25 km do centro, sempre tem temperatura mais baixa que a da cidade, como se pode conferir num relógio-termômetro que exis­te lá no alto.

Quando subir até o morro, se a cerração não vier, seu presente será, além de um grande cânion e da vista do litoral sul de Santa Catarina, vislumbrar a Pedra Furada, formação rochosa com uma abertura de 30 metros de diâmetro, que, a distância, parece uma grande janela. Outra atração que não dá para perder é a Cachoeira do Avencal, a 6 km de Urubici. Seus 100 me­tros de queda servem não só para contemplação, mas também para a prática de rapel.

Pedra Furada. Serra Catarinense, Santa CatarinaOutro lugar em que a natureza se mostra grandiosa é na Serra do Corvo Branco, onde passa a estrada que liga Urubici a Grão-Pará, incluindo justamente o ponto mais alto da serra, a 1.470 metros de altitude. Sem falar que, para sua construção, foi feito o maior corte em rocha do Brasil, de 90 metros.

São 3 km de descida (ou subida) na serra, dos quais apenas 600 metros são asfaltados. Como na Serra do Rio do Rastro, as curvas na estrada são muitas e muito fechadas, dando um certo frio na barriga. Em compensação, a paisa­gem, mais uma vez, é sensacional, com a vege­tação do Parque Nacional de São Joaquim a perder de vista e picos que apontam para o céu esbanjando beleza.

Nessas bandas em que reinam a paz e a tranqüilidade, vale se hospedar no Refúgio Rio Canoas, misto de pousada e albergue muito aconchegante e com apenas cinco quartos com vista para a serra – e sem TV, para que os hóspedes só se interessem pelo que está outdoor. Para ninguém ter desculpa para não botar as pernas para andar, junto da pousada está a base da Corvo Branco Expedições, agência de passeios conduzida pelo uruguaio Juan Rivas, que, junto da mulher, Gisele, também é proprietário do Refúgio Rio Canoas.

Para quem está em forma, uma ótima e pouco explorada opção é o trekking até o Cânion do Espraiado, que dura de seis a sete horas, começando na pousada e seguindo pela margem do Rio Canoas, até ter início a subida de 6 km, que delineia, ao longe, o Cânion do Rio Canoas e os cumes do Campo dos Padres.

Depois, a puxada trilha se direciona para a borda do Cânion Espraiado, que descortina boa parte da Serra Geral, com destaque para a Serra do Corvo Branco e o Morro da Igreja, e, que beleza, o Rio Espraiado, que corre entre paredões de 400 metros e se desmancha em várias cachoeiras. Diante de um cenário grandioso e isolado como esse, certamente o aventureiro vai esquecer do cansaço e do esforço feito para chegar até ali.

Rotina da fazenda

A 110 km de Urubici fica Lages, a maior cidade da Serra Catarinense, com 165 mil habitantes, onde é comum ver caminhonetes enlameadas e muita gente de botas e bombacha. Reflexos de uma cidade que tem na agricultura e na pecuária as bases de sua economia e, aproveitando essa vocação, foi a pioneira, em 1985, em abrir as porteiras das antigas fazendas para os turistas – e a criar empreendimentos com esse fim, os hotéis-fazenda –, dando início ao turismo rural no Brasil.

Hoje em dia, muitas dessas propriedades dispõem de toda a estrutura desejada por quem viaja em família deseja – quartos confortáveis com TV, internet, piscina aquecida, sauna, sala de massagem, playground e recreação infantil, por exemplo. Mas o grande barato é o contato com o dia-a-dia da fazenda em plena atividade, como no Hotel Fazenda Boqueirão. Assim, bem de manhãzinha, pode-se ver a ordenha e tomar o camargo, café misturado com o leite que acaba de ser tirado da vaca.

Ou acompanhar a lida campeira, quando os hóspedes montam a cavalo para seguir os peões pelo pasto afora, que vão juntar o gado, curar algum animal do rebanho que esteja doente e colher espigas de milho. Depois do “trabalho”, o grupo pára num bosque e, em minutos, os peões preparam tudo para a rea­lização de um churrasco completo, entremeado por histórias e piadas e com direito até a um tipo de tapete individual para se recostar depois do almoço campeiro.

À noite, a Fazenda Boqueirão também celebra a cultura e a culinária regionais. Apresentação de grupos folclóricos, show de gaiteiros e, como não poderia faltar, comidas típicas – arroz-de-carreteiro, paçoca de pinhão e entre-vero, receita em que o pinhão é assado num disco de arado com frescal (carne salgada), lingüiça e bacon –, feitas no fogão a lenha, fecham um gostoso dia de aprendizado para quem é bicho da cidade.

Para uma imersão ainda mais a fundo no jeito campeiro de ser, estenda o passeio à Coxi­lha Rica, na zona rural de Lages. Trata-se de uma região situada entre os rios Lavatudo, Pelotas e Pelotinhas, em meio às araucárias nativas, que na realidade estão cada vez mais cedendo lugar para as florestas de pinus – um pinheiro comum utilizado para reflorestamento –, e um dos poucos lugares onde ainda podem ser vistas as taipas, extensos muros de pedra que antigamente delimitavam as propriedades rurais.

É em Coxilha Rica, alcançada depois de muita lama e solavancos no caminho, mesmo a bordo de um veículo 4x4, que estão as fazendas mais antigas dos arredores de Lages, algumas mantendo-se praticamente como na época de sua construção, nos idos do século 19.

Um exemplo é a Fazenda São João, de 1800, que oferece aos visitantes seus oito espaçosos quartos, com pé direito alto e móveis antigos. Sem falar de mais uma farta mesa de café com mistura, desta vez comandada por dona Vera, que também vende algumas das delícias que prepara, como queijos, geléias e compotas.

Entre um dedo de prosa aqui e um churrasco acolá, a comilança rola solta na Serra Catarinense. Ainda bem que há muito o que explorar por lá, seja numa caminhada leve, num trekking mais exigente, numa cavalgada. As calorias vão embora – e as imagens da imponência da natureza certamente permanecerão.

A repórter Karen Abreu viajou a convite do Serra Catarinense Convention & Visitors Bureau, Hotel Fazenda Boqueirão, Rio do Rastro Eco Resort e Santur.

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