Casa da Bocaina garante sossego e descanso

Dec 31, 1969
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Qual é o seu caso? Mora no Rio ou em São Paulo mas não agüenta mais a correria e a confusão das grandes cidades? Gosta da natureza e não liga muito para luxo, desde que haja algum conforto? Sente cansaço e tudo o que quer é um lugar tranqüilo, isolado e longe de tudo, onde possa descansar até se cansar de não fazer absolutamente nada?

Bem, em qualquer um dos casos acima, esta pousada pode ser uma boa alternativa para um delicioso fim de semana nada convencional. Até porque de convencional mesmo ela não tem nada. A começar pelo fato de que, tecnicamente, não é nem uma pousada e sim apenas uma casa: a Casa da Bocaina. Que, se você quiser, pode ser sua, já no próximo fim de semana.

Um amor, um lugar...Na Serra

Sala da Casa da Bocaina: lareira e conforto. Foto: Jorge de SouzaCasa da Bocaina não é uma pousada como outra qualquer. A tal ponto que não tem nem a palavra "pousada" no nome – é apenas uma "casa". Mas, também, não é uma simples casa de aluguel, dessas aonde você chega e tem que fazer tudo, da arrumação das camas aos pratos do almoço. É, na verdade, um meio-termo entre as duas coisas, com o bem-estar de uma casa de verdade e os serviços de uma pousada. Mas, tanto num caso como no outro, sem o olhar constrangedor dos donos por perto, o que deixa todo mundo muito mais à vontade. Você tanto pode se esticar no sofá na sala, puxar um livro e tirar uma soneca, como ter a certeza de que, quando chegar a hora, o almoço estará pronto e servido. E, melhor ainda, é você quem dirá que hora será essa!

É claro, porém, que deve haver um comum acordo com os outros hóspedes, já que, muito provavelmente, você não será o único, a menos que opte por se hospedar lá de segunda a quinta, quando quase ninguém vai. Mas isso também não é difícil, dado o perfil mais ou menos parecido de quem se interessa por se hospedar num lugar como a Casa da Bocaina, que fica completamente isolada no meio da mata da ainda virgem Serra da Bocaina, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, e que, mesmo estando entre as duas maiores cidades do país, nem luz elétrica tem. Mas é justamente esse primitivo isolamento o que seus hóspedes mais procuram. E ali sempre encontram.

Em geral são pessoas esclarecidas o bastante para saber que o prazer pode estar em coisas absurdamente simples, como o estalar da lenha na lareira ou os estalidos das velas acesas sobre a mesa. Gente que pode pagar um bom dinheiro para viver um fim de semana de pioneiro (a pousada não é caríssima, mas está longe de ser uma pechincha. Quem vai para a Casa da Bocaina busca algo mais do que quartos com televisão, ar-condicionado e frigobar, coisas que, por sinal, ela não tem, nem quer ter – a começar pela própria decisão de não instalar energia elétrica. Também não quer piscina, nem jardins floridos, muito menos atividades como ginástica e hidromassagem – aliás, pra que, se a metros da casa há cachoeira e mata atlântica? Tampouco procura por patos, galinhas e laguinho, já que o envolvimento da pousada com a ecologia vai muito além de banalidades desse tipo. A Casa da Bocaina não fica perto da natureza. Fica dentro dela. E quem se hospeda gosta exatamente disso.

Em nome da proximidade com a vida natural, relevam-se até alguns inconvenientes da casa, como os banheiros, que são comunitários, e não individuais. Há dois para um total de cinco quartos, ou uma capacidade máxima de 14 pessoas na pousada. Quando a casa está cheia, o que é raro (salvo quando um grupo de amigos resolve ocupar todos os quartos, o que não deixa de ser uma boa opção já que o ambiente fica ainda mais familiar), um funcionário é destacado apenas para cuidar dos banheiros, entre um hóspede e outro. O resultado é que, salvo o incômodo de ter que cruzar a casa para chegar até eles, a limpeza não deixa a menor evidência de terem sido usados.

Como chegar

Visual da estrada que leva à pousada, em Serra da Bocaina Foto: Jorge de SouzaNem disso, nem do calvário que é o caminho, serra acima, para chegar até a pousada. Da cidadezinha de Bananal até lá (veja o mapa), são 24 quilômetros de uma espécie de provação a caminho do paraíso. A estrada começa larga, mas de terra e pedregulhada. Depois estreita e ganha uma tosca camada de asfalto. Por fim, vira uma quase trilha fechada na mata, onde mal cabe um automóvel. Ruim? Não! Péssima mesmo. No começo, os hóspedes tendem a achar que erraram o caminho. Em seguida, têm quase certeza disso.

Mas ninguém desiste. Até porque a maioria opta por deixar o próprio carro em Bananal e subir a serra no transporte sugerido pela pousada por quase duas horas de sacolejos numa Kombi. Mas tudo isso vale a pena. Se ficasse à margem de uma rodovia asfaltada, a Casa da Bocaina jamais seria o que é: um tipo de lodge de selva entre as duas cidades mais desenvolvidas do país.

Lá dentro, nem parece que você está perto do Rio e de São Paulo. Tampouco vizinho ao mar que, do outro lado da serra, banha as ilhas de Angra dos Reis. A sensação é de algo parecido com a Amazônia, até por conta dos macacos que circundam a casa. O silêncio chega a incomodar. Não passa nem avião. À noite, os ruídos da fauna são como uma aula de zoologia ao vivo. E o céu vira um planetário, coberto de estrelas. Dorme-se tão bem na pousada, que o difícil é sair da cama no dia seguinte. Porque elas são ótimas.

Lareira e lampião

Fiel à máxima de que rusticidade não significa, necessariamente, desconforto, a Casa da Bocaina oferece quartos básicos (há até instruções de como acender o lampião a gás, para os menos afeitos à vida rural), mas equipados com camas macias, lençóis engomados, travesseiros fofinhos e edredons que aquecem tão bem no inverno que ninguém reclama nem nas noites de geada. Além disso, as toalhas são perfumadas e a água, sempre fresca, já que a casa é abastecida por uma nascente natural – a mesma que dá forma a uma pequena cachoeira, quase no quintal. Muitos hóspedes passam horas passeando na mata, a caminho de outras cachoeiras. Outros aproveitam a paz e apenas curtem a casa. Que, como já se disse, não tem luxos, mas transpira aconchego.

Por si só, a casa da pousada já vale o programa. Resume-se numa única construção, feita de troncos, com um chalé anexo, com lareira própria, que é o segundo quarto mais disputado da casa, depois do principal, chamado Bugiu – peça para ficar num desses dois! Foi construída há mais de 50 anos por um casal de alemães, com técnicas rudimentares, como encaixes de madeiras e troncos de árvores. O resultado foi um lodge de montanha, com vigas à mostra, chão de tábuas largas e uma grande lareira dominando a sala. Lembra uma casa alpina ou uma cabana canadense. Só falta a cabeça de alce na parede, coisa que jamais haveria, porque a pousada é 100% ecológica.

Bons livros decoram as prateleiras. Foram deixados por ex-hóspedes, já que a casa é perfeita para ser curtida em boa companhia, ainda que de um livro. Na mesa, mapas apontam com precisão onde se está, já que quem chega lá costuma perder a noção de tempo e de espaço. E, na parede, um quadro exibe fotos de antigos hóspedes que, depois de uma única temporada lá, já são chamados de “gente de casa”. Porque, afinal, esta pousada é isso mesmo: uma casa. E que também pode ser sua.

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