Desfrute do aconchego de Cunha em charmosos chalés em meio à natureza
Cunha, no interior de São Paulo, então chamada de Freguesia do Facão, era a parte final do Caminho Velho do Ouro, o longo trajeto usado por tropeiros e escravos que faziam principalmente o transporte do cobiçado metal extraído em Minas Gerais até Parati (RJ), de onde era despachado para Portugal.
Trezentos anos depois desse ciclo, Cunha, a 240 quilômetros de São Paulo (SP), deixou de ser um mero ponto de passagem e apoio aos antigos aventureiros para ser o destino final de outros “forasteiros”: paulistas de outras paragens, mineiros, fluminenses, portugueses e até japoneses.
Pousada Barra do Bié
Por tesouro, entenda-se uma natureza generosa – a cidade fica no meio de uma “ferradura” formada pelas serras do Mar, da Bocaina e Quebra-Cangalha, num entorno em que não faltam parques, cachoeiras e trilhas. A natureza também providencia a argila, que faz surgir outra joia local, as peças de cerâmica que, há quase 35 anos, com a chegada de ceramistas do Japão, tornou-se a marca registrada de Cunha.
A oportunidade de desfrutar um contato com a natureza e garimpar belas cerâmicas para casa foi levando mais “forasteiros” à cidade: turistas e gente para atendê-los, que investiu em restaurantes e pousadas para lá de agradáveis, como o casal Ciro e Ana Rosa Calfat – ele, paulistano, ela, carioca –, que montaram a deliciosa Pousada Barra do Bié.
Para começar, o empreendimento fica relativamente isolado, a seis quilômetros do asfalto, num lugar onde o celular não pega e não tem TV a cabo, o que só será um problema para os urbanoides em tempo integral. Na chegada, a recepção é feita não só pelo simpático casal de donos, mas também por Bié e Gorê, os dois golden retriever mantidos na pousada, assim como pelo grandalhão são bernardo Dino.
Os seis charmosos chalés contam com cama king size (que ganha até uma bolsa de água quente, à noite, para deixá-la aquecida) e lareira – itens como TV com DVD, banheira e hidromassagem variam de acordo com o quarto escolhido. E além de piscina aquecida, sauna, academia, serviço de massagens e um aprazível gazebo de frente a um riacho, a Barra do Bié encanta com os sabores das refeições ali servidas, sob responsabilidade da proprietária Ana Rosa. Ela cozinha divinamente, seja um prato à base de pinhão, um risoto de shitake ou um cordeiro, degustados em pratos de porcelana e talheres de prata, sem falar das taças de cristal, que pertenciam à sua família.
Cerâmica, a marca da cidade
O aconchego e os mimos das pousadas convidam a estender o sono, mas uma viagem a Cunha requer que o visitante, especialmente se for ficar apenas o fim de semana, passe boa parte do dia fora, até porque, só de ateliês de cerâmica, um dos grandes atrativos locais, há 19.
A tradição da cerâmica no município teve início com as paneleiras, como eram conhecidas as mulheres da cidade que aprenderam a lidar com o barro e faziam uma cerâmica mais simples, produzindo principalmente panelas e potes de barro. Até que, em 1975, um grupo de ceramistas japoneses e portugueses, que haviam estudado e trabalhado no Japão, chegaram a Cunha e, se instalando no antigo matadouro da cidade, construíram ali o primeiro forno noborigama. O “equipamento” é essencial para o desenvolvimento da cerâmica de alta temperatura, em que a queima das peças alcança até 1.400 ºC, numa técnica em que o artista molda a argila, mas é o forno que garante a “cara” do objeto.
O noborigama, que surgiu na China e se difundiu no Japão, é um forno normalmente com três câmaras interligadas, cada qual numa altura, como se formassem uma rampa, e que são alimentadas pela madeira que queima numa fornalha em sua parte inferior. Seu funcionamento, bem como uma explicação do processo de fabricação da cerâmica de alta temperatura e principalmente a retirada das peças dos fornos podem ser conferidos em espaços como o Suenaga & Jardineiro e a Oficina de Cerâmica Leí e Augusto.
No ateliê do casal Suenaga Kimiko e Gilberto Jardineiro são encontrados lindas luminárias, esculturas, vasos, mosaicos e painéis, além de objetos utilitários, enquanto o dos artesãos cunhenses Leí Galvão e Augusto Campos foca mais em peças para o dia a dia, como jogos de café, copos, chaleiras, panelas, travessas, petisqueiras e cubas de cerâmica.
Ambos têm fornos noborigama e em alguns fins de semana, especialmente nos que são seguidos ou precedidos de feriado, recebem os turistas para a esperada abertura dos fornos, quando é possível escolher uma peça que literalmente acaba de sair do forno – sim, quando você a pega, ela está morna, “descansando” há três ou quatro dias desde que o fogo foi apagado. É um momento divertido, em que chega a ocorrer de duas pessoas quase disputarem uma peça da qual praticamente só viram a cor, já que ela ainda está dentro da câmara quente.Outro grande nome da cerâmica local é o da japonesa Mieko Ukeseki, que estava no grupo dos pioneiros que chegaram a Cunha em 1975.
As peças do ateliê, feitas em parceria com o marido Mário Konishi e para as quais há uma pesquisa constante para se chegar a novas ideias e formas, estão entre as mais diferenciadas e belas (e consequentemente caras) de Cunha, com destaque para as peças decorativas, a exemplo de esculturas e vasos. Também não faltam os tradicionais jogos de café e chá, bules, jarras, travessas e delicados vasinhos para pendurar flores e pequenas plantas na parede, objetos que saem do forno de três a quatro vezes por ano – e cuja abertura de fornada, infelizmente, não pode ser vista pelo público.
Outros artistas, outras técnicas
A cerâmica feita no forno noborigama é a mais comentada de Cunha, mas não é a única técnica com que os artistas locais trabalham. Próximo do ateliê de Mieko e Mário está o do ex-publicitário paulista Jotacê Carvalho, que queima suas peças num forno a gás, o qual, apesar de comportar bem menos peças que o forno japonês, guarda algumas similaridades com aquele.
“Como na técnica do noborigama, os objetos são queimados sob alta temperatura, num processo que também é feito duas vezes”, conta Carvalho, que desenvolveu uma cara própria para suas criações. Além do design moderno, o artista utiliza uma ferramenta odontológica para criar “estrias” nas peças, sem falar dos desenhos de argila aplicados sobre essas estrias, resultando em texturas, baixos e altos relevos, efeitos, cores, sombras e até ilusão de ótica na forma dos objetos.
Fora da cidade, no km 61,5 da Estrada Cunha–Paraty, a especialidade do casal Zahiro e Gitika Anand é a queima da cerâmica pelo método japonês do raku, que remonta ao século 15. Trata-se de um processo que visualmente é bem bonito, interessante e que, realizado quase todos os sábados (confira as próximas datas no item Programe Sua Viagem), no fim da tarde, pode ser acompanhado pelos turistas no tranquilo sítio-ateliê dos Anand. Lá também está o Dojo Zen Gaku In, o Templo Zen da Montanha, onde são realizadas meditações seguindo essa filosofia oriental adotada pelo casal.
Na técnica do raku, as esculturas, máscaras e outros objetos voltados à decoração passam, inicialmente, pela tradicional primeira queima no forno a gás, quando fica pronto o chamado biscoito, e vão “esfriar”, parte que os visitantes não veem. Depois, na presença dos turistas, as peças já esmaltadas voltam para o forno, onde ficam por cerca de uma hora – nesse tempo, para entreter a plateia, o casal Anand fala da produção da cerâmica e exibe fotos e vídeos da atividade.
Ao fim do período da segunda queima, o forno é aberto e o choque térmico promove craquelados nas peças, que, brilhando como fogo, bem aos olhos dos visitantes, são colocadas num local que contém serragem de madeira. Nesse momento, outro espetáculo: a fumaça ocasionada pela colocação das peças sobre a serragem penetra nos craquelados, formando desenhos que nunca podem ser previstos e que passam a apresentar efeitos incríveis.
Os objetos então ganham um banho d'água fria e estão prontos para serem comprados pelos clientes, que celebram o momento com um café da tarde com gosto de festa junina, já que são servidos quentão, pipoca e amendoim, entre outros quitutes.
Caminho para a Pedra da Macela
A menos de quatro quilômetros do ateliê de Zahiro e Gitika Anand, exatamente no km 65 da Estrada Cunha–Parati, há um acesso de terra que leva a outras boas surpresas de Cunha. A principal delas é a Pedra da Macela, que propicia uma vista em 360º das serras que circundam a cidade, da baía de Angra dos Reis com suas ilhas e da cidade de Parati, que, de tão nítida, parece estar a uma caminhada possível mesmo lá de cima.
O visual é matador, mas prepare-se para suar a camisa na caminhada que leva até o topo da pedra, a 1.850 metros. O percurso nem é muito longo – dois quilômetros num trajeto pavimentado –, porém é feito todo em subida, bastante íngreme em algumas partes. Além de algum fôlego, outros detalhes deixarão o seu passeio perfeito: faça a caminhada num dia bem ensolarado, o que permite apreciar toda a grandiosidade da paisagem, e saiba que os cerca de quatro quilômetros de estrada de terra até onde os carros vão, antes de começar a subida a pé, são ruins, mas transitáveis em dias secos.
Para relaxar o corpo e o espírito depois dessa aventura, o alemão Thomas Rau tem um bem-vindo refresco. São as cervejas artesanais Wolkenburg, que ele vem fazendo há um ano em seu sítio, acessado a partir da mesma estradinha que leva ao caminho da Pedra da Macela.
Formado mestre cervejeiro na Alemanha depois de sete anos de estudos, Rau conta que sua cerveja é 100% natural, feita com lúpulo alemão, quatro tipos de malte (três deles alemães) e água de uma nascente localizada na propriedade.
Seguindo os princípios da Lei de Pureza de 1516, surgida na Alemanha para definir os padrões de produção da bebida, Rau fabrica três cervejas: a Fit, do tipo pilsen, com baixas calorias e a de menor teor alcoólico da casa (2,8%); a Weiss, de trigo e com 4,8% de teor alcoólico; e a Dunkel, escura mas não doce, com sabor acentuado e teor alcoólico de 5,3%.
Atualmente, a produção é pequena, em torno de mil garrafas ao mês, o que inviabiliza a chegada da Wolkenburg mesmo nas cidades vizinhas a Cunha. E isso nem está nos planos do alemão. “Queria fazer uma cerveja que fosse conhecida como a cerveja de Cunha. E acho que ela está agradando porque vejo muita gente dizer 'humm' depois de prová-la aqui”, comemora Rau, que comanda uma degustação gratuita das “loiras” em seu sítio, aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 17h.
Além da degustação, o cervejeiro pretende receber os visitantes, em outubro, com uma miniOktoberfest, ocasião em que ele promete oferecer uma cerveja especial, pratos típicos e, possivelmente, uma bandinha alemã, numa área que, depois da festa, funcionará como restaurante de especialidades alemãs. “Para a segurança dos participantes, teremos serviço de vans que, em horários determinados, buscarão e levarão os turistas para as pousadas”, assegura.
Variedade gastronômica
Comer, e muito bem, é outro grande prazer em Cunha. E mais uma vez, na mesma estrada que conduz à Pedra da Macela, surge um restaurante que pode ser o eleito para o almoço depois dessa caminhada e da parada no sítio-cervejaria Wolkenburg. É o Taberna Coração da Terra – Shiitake & Cia (aberto aos sábados, domingos e feriados, das 12h às 17h), onde o casal Carlos e Ana cultiva esse tipo de cogumelo e oferece apenas pratos que levam esse ingrediente no preparo. Assim, além de massas e risoto, o restaurante serve invencionices como moqueca e feijoada de shitake – essa última é impressionantemente leve, já que linguiças, costelinha e afins são substituídos pelo cogumelo e por pedaços de cenoura.
Coisa de 300 metros depois de sair da sacolejante estradinha de terra, no sentido para Parati, está uma ótima novidade da gastronomia de Cunha, o Villa Favorita, especializado em massas e em outras receitas clássicas da cozinha italiana.
Da produção artesanal das massas, passando pelo cultivo do shitake, pelo preparo do pão ali servido e pela elaboração dos recheios e molhos, até a finalização dos pratos, tudo no Villa Favorita tem a mão do chef e proprietário do local Ernani Tedeschi, um engenheiro carioca que largou a profissão para fazer o que gosta: cozinhar. Ao degustar um ravióli de carne seca com abóbora ou um primoroso risoto de shitake, fica claro que, além de gostar de comandar as panelas, Tedeschi exerce muito bem o novo ofício que escolheu.
Mas é na cidade que fica o mais conhecido restaurante de Cunha, o Quebra Cangalha (Rua Manoel Prudente de Toledo, 540, a cem metros da terceira entrada para Cunha; aberto todos os dias para almoço e de quarta a domingo também para o jantar), que, fazendo jus às raízes do dono, o proseador Wilmar Toledo, serve maravilhas mineiras. Entre elas estão a leitoa à pururuca, lombinho de porco (guarnecido por couve, arroz, feijão, farofa de banana da terra e chutney de manga) e o cangalhinha, porção que traz torresmo, mandioca frita e linguiça caseira.
O restô, que sempre exibe trabalhos dos artistas da cidade e de onde se tem uma senhora vista das montanhas que dominam o entorno de Cunha, também tem pratos com um toque contemporâneo, que Toledo diz serem a contribuição de Vera, sua mulher, para o cardápio. Um exemplo é o filé mignon recheado com fatias de queijo brie derretido e regado por um molho de pimenta rosa, mais purê de batatas.
No bairro Vila Rica, que concentra belas casas e vários ateliês de cerâmica – como os dos artistas Carvalho e Mieko e Mário –, o chef Daniel Cohen montou, há um ano, o Le Provence, que trouxe para a cidade a ideia de se trabalhar usualmente com um menu-degustação, num cardápio que muda constantemente, uma vez que Cohen é adepto dos preceitos da cozinha provençal, originária do sul da França: cozinhar de acordo com os produtos típicos de cada estação e escolher o que há de melhor e mais fresco no mercado.
Como consequência desse pensamento, muitos das legumes, verduras e ervas usados no preparo da comida vêm do próprio sítio do chef, sendo colhidos na quantidade em que serão necessários no restaurante. “Minha filosofia é trabalhar sem estoque e sem freezer”, explica o chef formado pela renomada escola francesa de gastronomia Le Cordon Bleu, que sempre circula pelas mesas para explicar o menu.
Tantos cuidados rendem sabores delicados como o do shitake no papilotte, em que os cogumelos, em grandes pedaços, são cozidos no vapor de sakê e shoyu, e o do levíssimo e delicioso nhoque de batata, que leva pouca farinha e é recheado com mussarela, parmesão, alecrim e manjericão, regado por um molho ao sugo. A ratattoulie também faz sucesso entre os clientes, com os tenros legumes chegando à mesa como na animação da Disney e da Pixar que tem o mesmo nome – batata e cenoura, entre outros, são dispostos em camadas, como numa lasanha, alternadas com molho de tomate e queijos.
Chefs formados ou autodidatas, donos de pousadas e comerciantes, sem falar dos habilidosos ceramistas e de outros artistas, muitos “forasteiros” já descobriram Cunha e seus encantos (e potenciais). A uma distância razoável de São Paulo e Rio de Janeiro – 240 quilômetros e 308 quilômetros, respectivamente, o que torna um feriadão um ótimo período para curtir a natureza, o ar puro, o sossego, as comprinhas e mais um pouco de tudo o que há pelos arredores –, está na hora de outra turma, a dos turistas, também aprender a fazer um pit stop na cidade.
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