Encravada nas montanhas da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga é a mais importante cidade histórica de SP

Praça Osvaldo Cruz, centro histórico de São Luíz do Paraitinga (Foto: Revista Viaje Mais)
Os visitantes começam a voltar a São Luíz do Paraitinga (SP), menos de dois anos depois da grande enchente de janeiro de 2010, que destruiu igrejas e dezenas de casarões do centro histórico. A cidade passa por uma fase de reconstrução do conjunto arquitetônico afetado pelas águas e apresenta novidades, entre elas a recuperação de alguns casarões, a inauguração da igreja de Nossa Senhora das Mercês e a volta do famoso carnaval de rua com bandas de marchinhas e desfile de blocos. Para coroar este “renascimento”, São Luíz abre a temporada de rafting no Rio Paraibuna, que corta lindas paisagens de mata atlântica nativa do Parque Estadual da Serra do Mar.
A pequena São Luíz do Paraitinga, encravada nas montanhas da Serra do Mar, no caminho entre Taubaté e Ubatuba, a 250 km da capital paulista, é a mais importante cidade histórica do Estado. Reúne o maior conjunto arquitetônico tombado, com cerca de 400 construções dos séculos 18 e 19. A cidade surgiu em 1769, durante o primeiro ciclo do café, que transformou o Vale do Paraíba numa espécie de condomínio fechado de grandes fazendeiros. O lugar era passagem das tropas de mulas, que levavam sacas de café das fazendas até os portos no litoral.
Além da história, presente nas fachadas de igrejas e casarões, São Luíz do Paraitinga tem outras riquezas na cultura regional, com especial destaque às celebrações da Festa do Divino Espírito Santo, que ocorre em maio, e ao carnaval de rua realizado à moda antiga, que há duas décadas junta multidões embaladas pelo som das antigas marchinhas.
A enchente
Há dois anos, a localidade ficou ainda mais famosa por conta de um evento trágico. No réveillon de 2010, quando a população comemorava a virada do ano em noite chuvosa, o Rio Paraitinga, que corre bem ao lado da cidade, começou a encher.
Todas as casas do centro histórico ficaram embaixo d’água. As paredes de taipa e pau a pique das construções originais não aguentaram e 80 casarões foram afetados seriamente – 18 deles ruíram completamente. Foi possível ver na televisão o momento em que a torre da Igreja Matriz de São Luíz de Tolosa desabou. Da igreja, só restaram alguns pedaços da velha parede de taipa, o sino e três estátuas de cimento.No dia primeiro de janeiro de 2011, pela manhã, a água já chegava à Praça Osvaldo Cruz, no coração do centro histórico. Nas horas seguintes, o nível do rio subiu 12 metros. A água foi tanta que encobriu a fiação elétrica das ruas e chegou até a altura dos telhados.
O desastre, porém, poderia ter sido muito pior, pois, quando o rio encheu, cerca de 1.300 pessoas ficaram ilhadas ou presas no segundo pavimento das casas. Ninguém imaginou que o rio pudesse subir tanto, e muita gente permaneceu em casa, esperando a água baixar. Não era a primeira vez que uma enchente atingia o centro histórico, mas a água, que vez ou outra chegava às ruas, sempre recuava poucas horas depois sem deixar grandes estragos. Naquela ocasião foi diferente.
A “sorte” de São Luíz do Paraitinga foi contar com as equipes de rafting, que fazem os passeios nos rios do Parque Estadual da Serra do Mar e mantêm base na cidade. Os instrutores buscaram os botes nas agências, como a Montana e a Cia. de Rafting, e passaram a resgatar as pessoas ilhadas. Durante quatro dias e quatro noites, remando no limite do cansaço e das cãibras, a rapaziada do rafting retirou todos que estavam ilhados, boa parte idosos e crianças. O resultado foi fantástico: ninguém morreu na grande enchente de São Luíz do Paraitinga.
A reconstrução
Mesmo diante dos enormes prejuízos (5 mil pessoas ficaram desabrigadas num primeiro momento), o fato de todos terem se salvado acendeu uma luz de orgulho e força no espírito dos luizenses. Talvez tenha sido essa semente de otimismo que fez a reconstrução da cidade acontecer de forma rápida e surpreendente.
A assessora de planejamento da prefeitura, Cristiane Bittencourt, lembra que, quando a água finalmente baixou, “a cidade parecia ter passado por uma guerra”. Durante 40 dias os caminhões iam a vinham para recolher o entulho e o lixo acumulado nas ruas.
São Luíz ficou sem supermercado, padaria, banco, prefeitura, escola... A reconstrução começou do zero. O governo estadual instalou tendas do Poupatempo para a população fazer novos documentos, enquanto doações de alimentos, água, roupas e remédios chegavam de outras partes do Estado. Foram 60 dias até a cidade sair da situação de emergência.
Quem chega hoje a São Luíz do Paraitinga não percebe a dimensão da tragédia que ocorreu ali. Tudo bem que a igreja matriz e uma fileira inteira de casarões que desabaram deixaram um vazio na Praça Osvaldo Cruz. Ainda se veem paredes descascadas com o pau a pique exposto e casarões interditados pelo centro histórico. No entanto, nada que lembre qualquer cenário de guerra.
O Mercado Municipal foi recuperado e as prateleiras das lojas de artesanato já estão cheias de peças dos artesãos locais, com destaque para as pequenas esculturas de saci-pererê feitas em madeira e pedra.
A Igreja de Nossa Senhora das Mercês, de 1813, foi reconstruída tal como antes e inaugurada numa emocionante missa no dia 25 de setembro de 2011. Os técnicos do Iphan que trabalharam na igreja fizeram uma verdadeira garimpagem entre os escombros, durante meses, para resgatar e recriar as imagens originais dos santos, pedaço por pedaço.
O Museu Osvaldo Cruz, na casa onde viveu o filho ilustre da cidade, o médico-sanitarista que combateu a varíola e a peste bubônica no Rio de Janeiro, no começo do século 20, foi parcialmente destruído por uma árvore, mas já está refeito e deve ser reaberto no final do ano. Vai expor antiguidades, móveis e fotos antigas. E na última semana de agosto, as obras de reconstrução da Igreja Matriz de Santo Antônio de Tolosa, aquela que a TV mostrou desabando, foram finalmente iniciadas. Os gastos para a recuperação da igreja estão estimados em R$ 13 milhões.
Para fechar o ciclo de recuperação da cidade histórica, os proprietários dos casarões destruídos receberam projetos de restauração elaborados pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), órgão da Secretaria de Estado da Cultura, e pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
As casas deverão ser harmônicas ao conjunto arquitetônico original, mas sem a taipa e o pau a pique das antigas construções. Os proprietários com renda inferior a 10 salários mínimos mensais devem ganhar as reformas, subsidiadas pela Secretaria de Cultura do Estado.
Futuro
As panelas de afogado, o prato típico local, um cozido de carne inventado pelos tropeiros que por ali passavam desde os tempos do ciclo do café, no século 19, continuam fumegantes no fogão a lenha do restaurante Cantinho dos Amigos.É assim, olhando para o futuro, que a velha São Luíz do Paraitinga vai tocando a vida. Nas ruas do centro histórico, o som das marretas da reconstrução mistura-se aos acordes de saxofone e percussão que ecoam pelas janelas de casarões, onde estão instalados o Projeto Guri e a Corporação Musical de São Luíz de Tolosa, escolas de música que ensinam gratuitamente crianças e jovens a tocar nas bandas que acompanham procissões e blocos de carnaval.
“Seu” Nelson “do Mato Dentro” ainda comanda o programa Estrada do Sertão nas manhãs de domingo da Rádio Paraitinga, com muita moda de viola e música sertaneja ao vivo no estúdio. Ou seja, a vida na cidade segue seu ritmo normal, que é naturalmente calmo e tranquilo.
Alguma adrenalina só mesmo nos botes de rafting que já estão descendo as corredeiras do Rio Paraibuna desde setembro. Aliás, esse é, sem nenhuma dúvida, um dos mais emocionantes passeios de ecoaventura que se pode fazer no Brasil. Não só pela emoção das corredeiras, mas, principalmente, pela beleza da paisagem, já que o percurso de 10 km atravessa trechos intocados de mata atlântica no interior do Parque Estadual da Serra do Mar.
Cultura não se tira
Até o famoso carnaval de São Luíz do Paraitinga renasceu em 2011, e voltou a reunir 80 mil pessoas a desfilar nos blocos de rua ao som das bandas de marchinhas. O mesmo sucesso fez, neste ano, a tradicional Festa do Divino Espírito Santo, que sempre tem início no 50° dia após o carnaval. São nove dias seguidos de festa na cidade, com bandas de congada, procissões e cavalhadas.
Se a enchente comprometeu parte do patrimônio histórico, em nada afetou a criatividade e a forte cultura regional. Que o digam os incríveis contadores de história, que mantêm vivas as lendas do saci-pererê, mula sem cabeça, curupira, lobisomem... Dizem na cidade que o capitalismo baniu esses seres fantásticos do resto do mundo e eles tiveram de ir morar em São Luíz do Paraitinga.
Em nome da preservação da cultura local, muita gente diz que vê saci de vez em quando na cidade. Tanto que lá existe a emblemática Sosaci, a Associação dos Observadores de Saci.
Os associados escolheram o 31 de outubro para celebrar o Dia do Saci, só para confrontar com o Halloween, o dia das bruxas norte-americano, que nada tem a ver com a cultura brasileira.
Os restaurantes locais colaboram com o movimento cultural “antropofágico” para “devorar” a cultura estrangeira com um festival gastronômico de receitas à base de abóbora.
É um evento curioso o Dia do Saci. No dia 31 de outubro, senhores e senhoras de reputação ilibada sobem ao coreto da praça e começam a contar as histórias de saci. Depois de ouvir a terceira história, que são envolventes e cheias de detalhes, ninguém mais tem dúvida de que saci existe. Se o feijão esturrica ou o leite azeda em São Luíz do Paraitinga, a culpa é sempre do bendito saci.
O fato é que todo mundo na cidade conhece (e conta) boas histórias não só de saci, mas de assombração também, como a do Cabrá, um pavoroso gigante invisível que “fuma criança no cachimbo”.
Há inclusive os contadores de história “profissionais”, como o Ditão Virgílio e o Geraldo Tartaruga, que cresceram com essas lendas populares, contadas pelos avós, ao pé do fogão a lenha. São dois sujeitos com grande talento na arte de contar história. Alteram o tom de voz, gesticulam, arregalam os olhos e fazem o interlocutor “viajar”.
O Ditão Virgílio também escreve poesia de cordel e vende os livrinhos nas lojas de artesanato do Mercado Municipal. Os temas, geralmente, são as lendas folclóricas, mas uma delas foi baseada num evento bem real, a enchente do Rio Paraitinga. Um trecho diz assim: “Nossa cultura está viva. Essa a água não levou. O jeito de ser caipira. Um feijão com cambuquira. A simpatia de um povo. Esta a enchente não tira”.
Para comentar é preciso autenticar-se.
Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
Sobre duas rodas, explore Mendoza nas férias
Uma série de empresas de turismo já está com pacotes prontos para quem deseja viajar nas próximas férias. A Bike Expedition, por exemplo, criou um roteiro de cinco noites de bicicleta pela região de Mendoza, na Argentina. No total, são 200[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:07 - Atualizado em 14/05/2012 12:32
Acampamento do Santos oferece à garotada rotina igual a dos atletas
Se seu pimpolho ou adolescente demonstra ter talento com uma bola nos pés, por que não inscrevê-lo no Santos Training Camp? Trata-se de um acampamento, entre 16 e 21 de janeiro de 2012, no Oscar Inn Hotel Eco Resort, em Águas de Lindoia (SP),[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:11 - Atualizado em 14/05/2012 12:18
Estude e ainda aproveite as belas paisagens da Austrália
A Austrália tem praias lindas e com ótimas ondas, em diferentes pontos do país. Sem contar a beleza e a diversidade subaquáticas, como comprova a exuberante Grande Barreira de Corais. Por isso, tem tudo a ver estudar inglês por lá e ainda[...]
- Publicado em 10/05/2012 18:00 - Atualizado em 14/05/2012 12:09
Inglês e diversão num curso de férias em Vancouver
Os pais que pretendem presentear os filhos com uma viagem, a qual ainda resulte num upgrade da língua inglesa, podem conferir os programas de estudo no exterior oferecidos pela Experimento. Uma das alternativas é um curso de três semanas em[...]





