Jalapão, no norte do Brasil, concentra muita aventura e paisagens deslumbrantes

Dec 31, 1969
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Desligue a televisão, apague a luz e esqueça o celular. Imagine um lugar sem asfalto, sem energia elétrica, sem nada. A paisagem é dominada pelo cerrado e quebrada apenas por grandes chapadas na linha do horizonte, acessíveis por estradinhas poeirentas de terra avermelhada.

O calor é forte e o céu estoura em azul. No meio disso tudo, dunas, rios, cachoeiras e poços de água cristalina compõem um dos lugares mais ermos do Brasil, tão inóspito quanto deslumbrante. Um lugar que atende pelo estranho nome de Jalapão, inspirado numa planta local chamada jalapa. É difícil imaginar o cenário?  Veja aqui como é o mais recente paraíso descoberto pelos ecoturistas. 

Um convite ao sossego

Os rios esbarram nas dunas do Jalapão, TocantinsA lista de itens para levar na viagem é grande: protetor solar, repelente, botas para caminhadas, toalha, lanterna, pilhas sobressalentes... Peraí! Pilhas sobressalentes? Por que uma lanterna seria tão útil assim? O Jalapão é um parque estadual onde energia elétrica é artigo de luxo e asfalto ainda é sinal de progresso e civilização. Principalmente num acampamento chamado Korubo, localizado dentro da reserva. 

O Korubo é uma espécie de acampamento de luxo, inspirado nos safari camps africanos, onde você não tem que se preocupar com nada. Ou melhor, quase nada. Tudo muito bem pensado e organizado. E rústico, é claro. Mas nada que se compare às áreas de camping tradicionais. Tem até chuveiro com água quente.

Nenhum luxo, mas tudo de aventura

A subida da Serra do Espírito Santo. Jalapão, TocantinsMesmo que você nunca tenha acampado na vida, é bem provável que goste de lá. Primeiro, pelo astral. As pessoas que se dispõem a ir para um lugar como esse geralmente têm alguma afinidade, seja ela qual for. O dia começa bem cedo e sempre termina com o grupo em volta de uma fogueira. Além disso, a comida é surpreendentemente maravilhosa e as barracas até que são espaçosas. Não chegam a ser uma tenda, obviamente, mas são maiores do que as tradicionais. Acomodam duas pessoas e têm até uma pequena estante para ajeitar as malas. 

Para quem acampa uma orientação é importante: não deixar sapatos do lado de fora da barraca. Eles podem virar casinha de cobras ou escorpiões.

Depois de seis horas de viagem de Palmas, a capital do Tocantins, até o Jalapão (três delas por uma estradinha miserável de terra), mesmo ficando no Korubo, o único meio de hospedagem dentro do parque, é preciso rodar muito para chegar às atrações. Os lugares mais próximos ficam a meia hora de jipe. As estradas são péssimas e, na época de chuva, viram grandes atoleiros até para veículos com tração nas quatro rodas. Esqueça, portanto, a ideia de viajar com um carro de passeio. É entrar em roubada na certa. Algo como andar descalço num recife de corais.

Como é o Jalapão?

As dunas chegam a atingir 30 metros de altura no Jalapão,TocantinsO Jalapão é um dos lugares menos povoados e mais inóspitos do Brasil. As principais cidades, como Mateiros e São Félix, ficam no entorno do parque e não passam de vilarejos com ruas de terra e pouco mais de 1 500 habitantes. É aquele tipo de lugar onde quem vem de fora vira a notícia da semana. Os moradores se conhecem a tal ponto que as mulheres andam nas ruas de bobes na cabeça, como se fossem a última moda em Milão – e você é que ainda passa por ET. Já Ponte Alta, a porta de entrada do parque, pode ser considerada uma metrópole se comparada às duas vizinhas. Possui cerca de 7 000 moradores e fica a 120 quilômetros do acampamento, todos percorridos pela tal estradinha de terra. Ou seja, a sensação é a de que você está num lugar ermo. E está mesmo. Celular não pega. Televisão, também não. E luz, só com gerador.

O curioso é que ninguém sente a menor falta de tudo isso. Imagine-se, por exemplo, tomando banho logo cedo em praias fluviais de águas mornas e tranqüilas, como as que se formam ao lado do acampamento. Ou se deparando com o visual das dunas alaranjadas pelo pôr-do-sol, o principal cartão-postal do Jalapão. Vale qualquer esforço. Inclusive o momento máximo de integração com a natureza, que, no caso do Jalapão, pode ser desde um banho de cachoeira. 

A fauna à vista

Águas cristalinas na Cachoeira do Fervedouro. Jalapão, TocantinsA natureza foi especialmente generosa neste pedaço do coração do Brasil. Sua fauna vai muito além de calangos e outros bichos que vivem no chão. As araras e pássaros típicos do cerrado são os mais fáceis de serem vistos – nos despedimos das dunas com o sobrevôo de um casal de araras azuis –, mas também dá para encontrar lobos-guarás, raposas, capivaras e até tamanduás-bandeira. Além disso, apesar de ser um lugar seco, o Jalapão é repleto de rios e cachoeiras.

Dizem que a reserva já foi o fundo do oceano, daí a grande quantidade de oásis espalhados por este cenário quase monocromático. A mais impressionante é a da Velha, uma queda fenomenal que seria perfeita não fosse por um detalhe: não dá para tomar banho perto dela. Mesmo assim, não deixe de ir até lá, porque só o visual já compensa a viagem. Peça ao guia para fazer o caminho em que é possível vê-la de cima, menos comum e bem mais bonito, e depois toque direto para a Prainha, pertinho dali, onde as águas do rio são represadas por pedras que o deixam tão calmo quanto uma lagoa. 

Não deixe de ir

Cachoeira da Formiga no Jalapão,TocantinsOutra cachoeira famosa é a da Formiga, um poção de águas claras e verdejantes, onde é possível brincar de Tarzan e lançar-se na água depois de balançar numa corda. E ainda há outras, como a do Lajeado e a de Sussuapara, esta última ao lado de uma larga fenda no solo, que termina num outro poço perfeito para aliviar o calor de mais de 30 graus. Mas nem só de cachoeiras vive o Jalapão. Há, também, o visual espetacular da Serra do Espírito Santo, uma subida de 800 metros de onde se tem um boa ideia da imensidão do parque. Lá do alto, o cerrado vai até onde a vista alcança. E formações como as da Chapada Diamantina, também chamadas de mesas, fecham a linha do horizonte.

O lugar mais curioso, no entanto, é o fervedouro, uma nascente de águas rasas e transparentes, cercada por bananeiras e que mais parece uma piscina. Lembra os rios de Bonito, no Mato Grosso do Sul. A diferença é que não tem peixes grandes e pode-se encostar os pés no chão – isto é, se você conseguir, porque afundam-se até os joelhos na areia fina e branca do poço.

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