Encare as aventuras por rios e cachoeiras no Jalapão
Mesmo longe de ser um destino ecoturístico badalado como a Chapada Diamantina (BA) ou Bonito (MS), o Parque Estadual do Jalapão certamente é um dos mais fascinantes roteiros para se fazer no Brasil. Embora seja conhecido como um deserto, não seria exagero chamar o parque – que envolve oito municípios e está encravado entre os Estados de Tocantins, Piauí, Maranhão e Bahia – de óasis. Isso por causa da abundância de água, nas mais atraentes variantes: cachoeiras, nascentes poderosas (os fervedouros), rios incrivelmente limpos e de água potável.
O ponto de partida mais comum para essa aventura – logo você entenderá porque aventura é uma palavra perfeita para definir uma viagem pelo pedaço – é a capital tocantinense, Palmas. De lá, é até possível chegar ao parque com um carro comum, mas a chance de atolar nas precárias estradas de terra e areia é enorme. E se você tiver de esperar por socorro, nesse deserto, vai esperar muito. A região tem a menor densidade demográfica do Brasil: 0,8 habitante por quilômetro quadrado. Em média, dois carros por dia, circulam na região. Três já seria “rush”. Mesmo veículos com tração 4x4 pedem uma direção atenta.
Aventura
Em uma região inóspita, com raras opções de hospedagem, não existe muita escolha quando se quer conhecer o Jalapão. Basicamente, há três modos.
Primeiro, encarar por conta própria uma aventura de monta-e-desmonta barraca, levando comida e combustível de reserva (caríssimo por lá). Outra opção é chegar até Ponte Alta do Tocantins (a principal cidade para chegar ao parque) e alugar um carro tracionado e mais um guia, já que as estradas e atrações são mal sinalizadas.
A terceira maneira é contratar uma das duas operadoras locais, Quatro Elementos e a Korubo Expedições. Se você optar pela Korubo, terá algumas mordomias dentro do que é possível em uma viagem de ecoturismo, num roteiro iniciado geralmente numa sexta à noite, em Palmas, e que termina na quinta-feira seguinte. Na prática, são cinco dias de passeio e dois de traslado.
A primeira parte da viagem ainda tem vestígios de civilização, mas a bela Serra Geral, avistada do caminho, anuncia o território que a ser desbravado. Ainda se trafega no asfalto e o celular funciona somente pelos próximos 80 km, o que é um alívio para uns e o desespero de outros.
A primeira parada é a Ponte Alta do Tocantins, a 190 km de Palmas e maior cidade da região, com 6.500 habitantes, onde é oferecido um almoço simples e saboroso. Para quem adora dar um “alô”, aproveite: essa é a última chance de fazer uma ligação telefônica. Em cinco dias é possível fazer passeios incríveis por esta região.
Cânion no deserto
De Ponte Alta são mais 120 km, literalmente sacolejando em estradas de terra e areia, até o acampamento da Korubo, conhecido como safári camp. Felizmente, há uma estratégica parada no pequeno mas belo Cânion do Suçuapara. A primeira sensação na trilha sombreada é de alívio, pois a temperatura média na região é de 30º C. Durante o dia, atinge facilmente 35º C, desabando para 13º C a 20º C durante a noite, conforme a época do ano.
Ali, temos a surpresa de encontrar uma fenda na rocha, de 15 metros de altura e 60 metros de comprimento, que forma um minicânion, com direito a uma pequena, mas forte e deliciosa queda d’água. A vegetação nos paredões, com água gotejando incessantemente, oferece um belíssimo visual. A fauna, embora abundante na região (siriema, araras, anta, lobo-guará...), é bastante arisca e raramente vista. Quem nos dá as boas-vindas, nadando placidamente no córrego local, é uma cobra, que o guia Mauro trata rapidamente de espantar.
Banho natural tomado, o caminhônibus segue chacoalhando para o acampamento montado à beira do Rio Sono, afluente do Rio Novo. Quem tem pique, já cai no rio nesse momento. Mas é final de tarde e os mosquitos são impiedosos. A maioria dos turistas se recolhe às tendas, localizadas com a parca ajuda da luz que vem de geradores e de transformadores de energia solar, além de tochas colocadas ao longo das pequenas trilhas.
No acampamento
O jantar revela a primeira boa surpresa do local: a comida não tem nada a ver com os improvisados macarrões instantâneos de camping. Existe, sim, um cozinheiro habilidoso, um gerente atencioso, geladeira (movida a gás) e pratos fartos e sofisticados, com direito a sobremesa.
Na manhã seguinte, à luz do dia, é possível ver em detalhes o safári camp, e compreender a engenhosidade ecologicamente correta. Em primeiro lugar, não se durma numa mera barraca, mas em espaçosas tendas, nas quais pode-se ficar de pé. Dentro delas há duas camas dobráveis de lona. Não parece confortável, mas acredite: depois de cada passeio, você volta cansado e feliz...e dorme muito bem.
O banheiro químico assusta a princípio, mas, no segundo dia, todos estão bem adaptados a usá-lo. A água do chuveiro é quente (até demais) e a “pia” para escovar os dentes é feita de tronco escavado de árvore. Tudo simples, mas funcional.
Subida ao mirante
Uma trilha que deve ser feita é o Mirante do Espírito Santo, a 28 km do safári camp. A trilha toda tem 800 metros e gasta-se cerca de 40 minutos para percorrê-la. Felizmente, há vários bancos no caminho, para descansar e admirar a paisagem.
Ao chegar ao platô, os guias oferecem o “jalapower”, bebida revigorante, segundo eles. A bebida tem um sabor pitoresco. Eles não revelam a receita exata – tudo indica que seja caju, limão, açúcar e sal. Diluído em água, fica menos estranho.
Do platô, o acesso para o primeiro mirante é facílimo. Mesmo que você tenha medo de altura, vale a pena ficar bem na beira de uma pedra e fazer a tradicional foto “eu-estive-aqui”, além de contemplar a vista. O caminhônibus estacionado lá em baixo, por exemplo, dá uma dimensão da magnitude do lugar: ele vira apenas um pontinho branco na paisagem.
Os demais platôs da região, todos com a mesma altura, foram supostamente cortados por rios colossais e caudalosos, em um passado remoto. Além disso, o Jalapão teria sido fundo de oceano há 60 milhões de anos.
Caminhe para o segundo mirante, a 3 km adiante, em trilha com pouca sombra, mas plana. Os efeitos da erosão hídrica e eólica na paisagem são a atração do local, ajudando a entender como se formam as famosas dunas do Jalapão.
Apesar de a trilha, na sua totalidade, não ser difícil, no caminho de volta é visível a satisfação de alguns turistas, que se sentem, com razão, vitoriosos por terminá-la, pois ela castiga os joelhos e faz tremer os músculos das pernas.
À noite, não há o que fazer. Então, simplesmente olhar para cima é a melhor sugestão para o momento, quando o céu está fartamente pontilhado de estrelas. Sem falar das estrelas cadentes que surgem com frequência. Como a cidade mais próxima (Mateiros) fica a 50 km dali, a escuridão é absoluta – e incrivelmente todos já estão bastante adaptados à falta de eletricidade. Água, água, água...
O terceiro dia de passeio é totalmente aquático. Três atrações, três mergulhos na água. A primeira parada, a 68 km do safári camp, é no Fervedouro. O primeiro deles parece um cenário montado para uma filmagem: um olho d’água morna, límpido e calmo como uma piscina, areia branquíssima no fundo, cercado de bananeiras.
Mais que um simples lago, estamos sobre uma estreita e forte nascente subterrânea, e abaixo dela, há um rocha. Assim, á água é jorrada com muita pressão, tanto que ninguém consegue afundar ali, embora seja, provavelmente, bastante fundo. Uma coisa que todo mundo faz ali é pegar montes de areia e esfregar nas mãos: ela “canta”, como um fino assobio.
O principal atrativo do segundo fervedouro é ter mais pressão do que o primeiro. Assim, a diversão é entrar correndo pela pequena passarela de madeira e “desaparecer” exatamente sobre a nascente – o corpo afunda completamente, mas logo é arremessado para cima. Uma delícia, mas não corra demais, se não você tropeça e cai de cara n’água (meu caso).
A terceira atração do dia é a Cachoeira do Formiga, pequena em altura mas grande em volume de água. É a melhor hidromassagem que se tem notícia na região. Nadar nessas águas muito limpas também faz parte do programa, especialmente se você tiver um snorkel.
O ouro do Jalapão
Na cidade de Mateiros, que faz divisa com o Piauí e conta com 2 mil habitantes pode-se comprar o famoso artesanato de capim-dourado. Na realidade, não é bem um capim, mas uma espécie de sempre-viva. É um material bonito, muito leve e resistente, e o artesanato a partir dele atrai a atenção no Brasil e nos diversos países para onde é exportado.
Adquirir algumas peças, além de embelezar a casa, não deixa de ser uma contribuição social, na medida em que não beneficia atravessadores (em São Paulo, por exemplo, os objetos e acessórios, como brincos e bolsas, têm preço quatro vezes maior do que no Jalapão).
Alguns sites brasileiros mostram e vendem o belo artesanato de coloração dourada, mas é uma pena que ao visitá-los, veja-se um material de divulgação mal feito, com erros de ortografia e fotos completamente amadoras. Certamente, os artesãos do Jalapão poderiam ganhar muito mais dinheiro se houvesse uma divulgação mais profissional do seu diferenciado produto.
Uma lacuna do pacote da Korubo é excluir a visita à comunidade Mumbuca, de origem quilombola (descendentes de escravos), onde teria nascido o artesanato do capim-dourado.
Remar na transparência
O quarto dia de passeio começa com canoagem, que parte do próprio acampamento, no Rio Sono. É uma atividade bem fácil, pois o trecho do rio em que navegamos é extremamente calmo – chega a ser entediante. Há duas paradas no meio do percurso, para tirar fotos e tomar mais um delicioso banho de rio. O prazer de tirar o capacete e o colete salva-vidas, naquele calor, e cair n’água… É bom demais.
O último trecho da canoagem tem um pequeno desnível, de cerca de um metro. O suficiente para divertir um pouco e até provocar algumas quedas, que também fazem parte da diversão. Pelo menos, de quem assiste – para momentos como esse, é bom ter um saco-estanque para proteger a máquina fotográfica. A Korubo tem, mas as câmeras de todos os turistas ficam amontoadas lá dentro.
Embora a fauna raramente seja vista na região, tivemos a sorte de ter a companhia, em um curto trecho do rio, de um casal de araras vermelhas. Em outro trecho, já em terra, vimos o sobrevoo de um casal magnífico de araraúnas, a maior arara do mundo.
As dunas: miragem?
Para o final da tarde, quando a temperatura fica mais amena, estava reservado um dos momentos mais esperados da viagem: ver o pôr-do-sol nas dunas. A comparação pode ser lugar comum, mas as dunas alaranjadas do Jalapão são tão belas que parecem uma miragem. É o ponto alto do roteiro e provavelmente o mais conhecido cartão-postal do Jalapão, que o levou a ser relacionado com um deserto. Mas, como se descobre no decorrer dos passeios, a região só é deserta em habitantes, pois não falta água. Nem nas redondezas das dunas, o que confere ainda mais beleza ao local.
Aproveite a diversão de saltar das dunas em direção a um declive bem acentuado. Na hora em que você salta, só vê o horizonte – dá medo. Cadê o chão? O bom é que a “aterrissagem” é em areia fofa, muito fofa, não tendo como se machucar. Descer as dunas correndo é outra opção divertida – as pernas afundam na areia e travam o tornozelo quase todo, impedindo, portanto, qualquer queda.
Mais água no último dia
O quinto e último dia do passeio marca o retorno a Palmas. A primeira parada é na bela Cachoeira da Velha, que é chamada, com exagero, de miniFoz do Iguaçu. A semelhança, vá lá, está na extrema facilidade de acesso. Pela primeira vez, em toda a viagem pelo Jalapão, você vai pisar em cimento e concreto, que formam as passarelas de acesso ao local. Não convém entrar na água, devido à força da correnteza, mas pode-se curtir o visual e fazer boas fotos.
Para nadar, o ponto final do passeio é uma praia de rio próxima à Cachoeira da Velha, que teria sido uma das locações do filme Deus é Brasileiro. Por sinal, 60% do filme foi gravado no Jalapão. Infelizmente, os farofeiros apreciam bastante a prainha e deixam no início da trilha uma quantidade enorme de lixo.
Para o último jantar em terras tocantinenses, a sugestão é o restaurante Tabu, especializado em peixes. De comida nordestina, a Cabana do Lago é uma ótima opção. A Pousada dos Girassóis oferece um excelente jantar – bufê de massas e saladas e um prato quente à escolha.
Explorar o Jalapão a bordo do caminhônibus e “hospedado” no safári camp mostra que a Korubo oferece uma forma engenhosa e surpreendentemente confortável para se viver uma aventura numa região tão bela quanto inóspita, que funciona como um aprendizado para todos, sem exceção.
Uns conseguem vencer trilhas íngremes, outro consegue sobreviver sem notebook-celular-internet, outro aprende a ouvir o silêncio, outro aprende a enfrentar o medo de água. A região mais deserta do Brasil certamente é um ótimo lugar para você se encontrar.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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