Visite Montevidéu um roteiro repleto de novidades gastronômicas, arquitetônicas e culturais
Mesmo em dias de semana, quando as ruas estão mais movimentadas, o caminho entre o aeroporto da capital uruguaia, Montevidéu, e as ramblas – uma sequência de avenidas que margeiam o Rio da Prata e guardam praias de água doce, alguns hotéis e bairros residenciais em seu entorno – já mostra uma peculiaridade da cidade e, por extensão, do país: um ritmo, se comparado a metrópoles brasileiras como São Paulo e Rio ou mesmo a outras capitais sul-americanas, bem mais sossegado. Mesmo que o lugar concentre 1,3 milhão de moradores (um número bem elevado levando-se em conta que o Uruguai todo tem 3,4 milhões de habitantes), não há uma multidão de pessoas pelas ruas.
Os motoristas, não raro a bordo de carros de modelos mais antigos, dirigem com calma e param para dar vez aos pedestres, que, por sua vez, caminham tranquilamente, muitas vezes com uma cuia de chimarrão nas mãos.
Um comportamento que permite aos turistas e mesmo aos locais reparar, com facilidade e sem sobressaltos, no jeito meio europeu dessa cidade, realçado pelos plátanos que enfeitam as ruas e pela beleza de muitas construções da Ciudad Vieja (Cidade Velha). Lá estão alguns símbolos de Montevidéu, como o majestoso Palácio Salvo, que chegou a ser o prédio mais alto da América do Sul à época de sua construção, nos anos de 1920, e o Mercado del Puerto, ponto famosíssimo da capital por abrigar uma série de restaurantes que servem uma das especialidades culinárias do país, a parrillada, o churrasco uruguaio em que cortes bovinos, alguns diferentes dos encontrados no Brasil, são grelhados num asador.
O curioso é que essa atmosfera sossegada e acolhedora, bem diferente da agitação de Buenos Aires – que fica do outro lado do Rio da Prata e é alcançada por uma travessia de ferry boat que dura uma ou três horas, dependendo da embarcação – e mesmo da conterrânea chique e badalada, Punta del Este, começa a dividir a cena com uma série de novidades arquitetônicas, hoteleiras e gastronômicas, que estão trazendo ares de renovação à capital. Entre os exemplos estão o estiloso aeroporto local e as modernas torres do complexo empresarial World Trade Center, entre os bairros de Buceo e Pocitos, responsável por fazer surgir na região restaurantes de decoração e menu moderninhos.
Se por um lado tais atualizações representam uma aposta na estabilidade econômica e no crescimento do país, em última instância visam a preparar Montevidéu e o Uruguai para uma candidatura, junto com a Argentina, a país-sede da Copa do Mundo de futebol de 2030, como pretendem as duas nações. Naquele ano, o torneio completararia seu centenário tendo como um dos palcos o lugar onde foi realizado pela primeira vez, quando os campeões foram justamente os uruguaios.
Portanto, não há mais desculpa para adiar uma visita à cidade. Se a sua onda ao viajar é demorar-se num banco de praça, numa praia ou num aprazível café para sentir o clima local, sem levas de pessoas tampando a paisagem, Montevidéu pode ser o seu número. E para quem não vive sem a movimentação típica de uma metrópole, a urbe também vem tratando de oferecer isso.
Juntando as duas facetas, tem-se um gostoso destino para um feriadão, que pode incluir ainda uma esticada ao badalado balneário de Punta del Este (que fica a 140 km da capital e basicamente só ferve no verão) ou à Colônia de Sacramento, a 177 km de Montevidéu, a qual, fundada por portugueses, é uma graça de cidade histórica, guardando casas coloniais coloridas e calçamento de pedra em sua parte antiga. E tudo fica ainda melhor quando se degustam, além de parrillas, chivitos, taças de medio y medio, doses de uvita... Acompanhe a reportagem e descubra, além do que fazer por lá, que iguarias são essas que o aguardam na terra do cantor Jorge Drexler – e em quais endereços experimentá-las.
À beira do Rio da Prata
O primeiro passeio em Montevidéu, até para se ter uma ideia de como a cidade está disposta, pode ser pelas ramblas, uma sequência de avenidas que, por 22 km, seguem o curso do Rio da Prata, o qual, só na altura do balneário Solis, no caminho para Punta del Este, começa a se encontrar com as águas do oceano. As ramblas fazem as vezes de avenida “beira-mar” da cidade, ou seja, além de um largo e limpo calçadão, têm grandes faixas de areia, que formam trechos de praias de água doce, algumas com direito até a ilhotas.
Situadas em localizações opostas, há duas partes mais turísticas nas ramblas pelas quais é indispensável bater perna: a região de Pocitos e a área do porto, onde fica o famoso Mercado del Puerto.
Pocitos é um bairro de classe média-alta, o qual guarda o prédio onde o ex-presidente João Goulart morou durante o exílio imposto pelo regime militar brasileiro e que, dado o estilo da praia e dos prédios, é chamado de “Copacabana uruguaia”. Além da praia e de praças arborizadas e muito aprazíveis – como a Praça Virgílio (ou Armada), já na altura de Punta Gorda e um dos lugares preferidos dos locais para ver o pôr do sol e tomar mais uma cuia de mate –, é nessa região que ficam muitos dos bons restaurantes de Montevidéu.
Entre eles estão o italiano Panini’s, de decoração bem bonita e dono de uma das principais adegas da cidade, e o La Vaca, de parrillas, sem falar de novidades gastronômicas como o Bamboo, o qual, situado junto do complexo empresarial World Trade Center, trouxe à cena recentemente, com competência, a culinária japonesa, que conta com poucos representantes na capital.
Próximo de Pocitos fica o abastado e ainda mais sossegado bairro de Carrasco, escolhido por muitos embaixadores, o brasileiro inclusive, como local de residência. Ali, na parte bem de frente para a rambla e para o Rio da Prata, está outra mostra da renovação que aos poucos se espalha por vários pontos da cidade: o belo Cassino Carrasco, inaugurado em 1921 e há anos fechado, teve sua concessão de exploração adquirida por um consórcio e está sendo restaurado.
A intenção é que o espaço – agora sob a batuta do grupo Codere, especializado em jogos de azar, e a bandeira hoteleira Sofitel – seja reaberto em dois anos, oferecendo 200 quartos e, claro, um cassino, função que tinha antigamente, num tipo de intervenção com investimentos privados como a que ocorreu, com sucesso, no ex-presídio de Punta Carretas, não muito distante dali.
A prisão, que abrigava principalmente presos políticos e terroristas durante a ditadura militar do Uruguai, ficou célebre em 1971, quando foi invadida pelos tupamaros (guerrilheiros que agiram no país entre os anos de 1960 e 1980), os quais libertaram 110 pessoas, a maior parte encarcerada por estar envolvida, em maior ou menor grau, na tentativa de queda do regime (ou por paranoia dos militares mesmo).
Desativada em 1985, há pouco mais de dez anos surgiu a ideia de se aproveitar a localização privilegiada da antiga cadeia – mais um ponto de frente para a rambla e para o rio –, bem como partes originais da construção, como o muro e outras estruturas, e transformá-la num shopping, o Las Carretas, hoje um dos principais da capital. O empreendimento é integrado ao hotel Sheraton, cujos hóspedes têm, por meio do mesmo cartão magnético que abre a porta do quarto, acesso direto e exclusivo ao interior do centro de compras. O hotel conta ainda com restaurante, academia, spa, piscina aquecida, jacuzzis...
Parrilla no Mercado del Puerto
O outro lado da rambla, marcado pelo porto (de onde sai o ferry boat para Buenos Aires), simboliza o encontro com a Montevidéu do passado. Com construções bem mais antigas – algumas clamando por uma restauração, o que daria ares bem mais charmosos ao caminho até Ciudad Vieja, a parte histórica da capital –, é ali que está um dos símbolos locais, o Mercado del Puerto. Esse é “o” lugar para passar horas provando algumas das especialidades uruguaias, ao som de músicos executando tangos e milongas de outros tempos, que combinam muito bem com o ambiente ligeiramente enfumaçado e à moda antiga do mercado, erguido há 140 anos. Dessa época, a construção ainda conserva as arcadas metálicas e um belo relógio de madeira ao centro.
Em estabelecimentos como o famoso El Palenque, bem como o El Pelegrino e o Don Garcia, entre outros, o cheiro de carne e a imagem do asador, forno de pedra com uma grelha em cima, já dizem tudo: são restaurantes especializados em parrilla, o churrasco uruguaio, que chega à mesa em partes. Primeiro vêm as linguiças, morcilla (embutido feito com sangue) e, incomuns para os brasileiros, pedaços de mollejas (timo) e riñones (rim) bovinos. Depois, chegam os aguardadíssimos cortes de carne propriamente ditos. Temperados com pouco sal para deixar sobressair ao máximo o sabor da carne, os cortes lá recebem nomes como quadril (parecido com a picanha), asado de tira (costela) e vacio (fraldinha). Para acompanhar, peça um tinto à base de tannat, a uva mais usada nos vinhos produzidos no país, ou alguma das cervejas locais, como a Patricia e a Norteña.
Na banca Roldós, a fama vem de um drinque, o medio y medio, em cuja taça o garçom coloca metade de espumante e metade de vinho branco, resultando numa mistura que, segundo afirmam os próprios funcionários, “sobe” fácil, principalmente para quem está de estômago vazio. Se esse for o caso, a casa prontamente pode ajudar, já que oferece deliciosos sanduíches feitos no pão de miga e com recheios diversos, como o clássico presunto e queijo e o gostoso roquefort com nozes.
Do mercado, nada mais natural do que partir para a Ciudad Vieja, onde uma curta caminhada revela vários pontos turísticos, num footing adorável especialmente se realizado na Peatonal (calçadão) Sarandí – outras ruas do centro histórico estão caídas ou em processo de renovação, que deve se estender pelos próximos três anos. A Sarandí já foi revitalizada e atualmente é cheia de lojas e cafés, além de contar com a Galeria Torres Garcia, que abriga uma exposição permanente com obras desse pintor construtivista uruguaio.
A primeira parada pode ser no Teatro Solís, inaugurado em 1856, casa da Comédia e da Filarmônica de Montevidéu desde 1937 e que voltou aos seus tempos de esplendor em 2008, depois de totalmente terminada a obra que o recuperou de um incêndio, quando ganhou um agradável café e novas poltronas na sala de espetáculos, importadas do Brasil.
Além de conferir ali a encenação de peças e óperas e até shows, a caprichada sala, que tem decoração em vermelho e dourado, bem como o palco, as coxias e o camarim, podem ser visitados em tours guiados, que também revelam o brilhante projeto arquitetônico do teatro, de fachada neoclássica e com maravilhas como colunas de mármore de Carrara e um lustre de cristal tão grande quanto raro: o que atualmente decora o saguão de entrada é uma réplica (e o teatro ainda conta com mais uma cópia), já que a fábrica que o produziu foi fechada, de forma que não há peças de reposição para o lustre original.
Mais atrações na Ciudad Vieja
Pertinho do Solís fica outro símbolo de Montevidéu, a vistosa e conservadíssima Plaza Independência, onde um prédio moderno e de fachada de vidro, mesmo sendo a sede da presidência uruguaia, não chama atenção mais que o majestoso Palácio Salvo, construção de 1922 que, àquela época, era o prédio mais alto da América do Sul.
Um portal, que remonta ao período colonial e marca que ali passava a muralha que envolvia Montevidéu – e hoje representa a entrada (ou saída) de Ciudad Vieja –, mais uma estátua equestre em homenagem ao general José Artigas, herói da independência uruguaia, conseguida em 1825 e oficializada em 1828, são outros atrativos da praça. O local merece uma visita de tardezinha, quando ganha uma iluminação que o deixa ainda mais especial. Sem falar que, por volta das 18 horas, integrantes da guarda nacional marcham rumo à estátua do general Artigas e hasteiam ali, diariamente, a bandeira do Uruguai.
O centro histórico também reserva muitos museus – só na Avenida 25 de Mayo, há o de Artes Decorativas (cujo acervo ocupa o Palácio Taranco, projeto da mesmo dupla de arquitetos que criou o parisiense Petit Palais), o Museu Romântico e o de Arte Pré-Colombiana e Indígena – e um grande número de lojas, com destaque para as que vendem jaquetas e outros artigos de couro, um clássico do país.
Já para a compra de lembrancinhas e artesanato, há duas unidades do Mercado de los Artesanos, uma na Plaza Cagancha e outra no número 1.312 da Calle San José. Ambos são acessados pela Avenida 18 de Julio, que começa na Plaza Independência e é outra via importante, extensa e movimentada de Montevidéu.
Para apaixonados e boleiros
Ao longo da Avenida 18 de Julio podem ser feitas algumas paradas – no cruzamento com a Calle Yi, por exemplo, há uma fonte lotada de cadeados dos mais diversos, cuja placa diz que, se uma pessoa apaixonada trancar um cadeado no gradil, marcado com as iniciais do casal, os pombinhos voltarão juntos no local e terão um amor que vai durar para sempre. Alguns desvios também complementam bem o passeio, levando a construções como o imponente Palácio Legislativo (ou Parlamento) uruguaio, que também oferece tours guiados.
Mas quem seguir direto por toda a Avenida 18 de Julio chegará ao Estádio Centenário, construído especialmente para receber alguns jogos da primeira Copa do Mundo de futebol, em 1930, incluindo a partida final do torneio, disputada entre Uruguai e Argentina e vencida pelos então imbatíveis uruguaios, que vinham de um bicampeonato olímpico. Ao visitar o Centenário por dentro, inclua um pit stop no museu dedicado ao futebol, que não tem as modernidades e a interatividade do Museu do Futebol de São Paulo (SP), mas reúne muitas fotos antigas e até a bola original usada na final da Copa de 1930.
Já fora do estádio, no Parque Battle, situado na frente do campo, vale fazer uma foto do La Carreta, um comprido monumento de bronze que mostra um carro de boi puxado por vários desses animais. Curioso? Não, apenas uma homenagem ao principal meio de transporte e de trabalho usado durante muito tempo no interior do Uruguai.
Nesse ponto do passeio, já se está pertinho de Pocitos, sempre uma excelente opção para uma refeição, já que, como citado no começo da reportagem, concentra alguns dos melhores restaurantes da cidade, além de casas como a Pizzería Trouville, de jeitão antigo e que é meio bar, meio restaurante. Nela, pode-se provar o chivito, o típico sanduíche uruguaio, que leva filé mignon, queijo, presunto, panceta, ovo, tomate e alface (ufa!) e vem acompanhado de batatas fritas. É um sanduba tão grande que, para os ingredientes não ficarem caindo no prato, recomenda-se comer de garfo e faca.
A vida noturna é mais um chamariz de Pocitos, que nos arredores da Avenida Herrera reúne vários bolichos, como os bares e pubs são chamados por lá. Entre as boas pedidas estão o Utopia, o Barba Roja e o Bar 62, que oferece de clericot (espécie de “versão branca” da sangria, feito com vinho branco ou espumante e frutas) a parrilla.
Uma noite tipicamente uruguaia
Mas, para uma noite verdadeiramente à moda uruguaia – leia-se com um cativante show de tango, em que o destaque é para as dramáticas músicas executadas ao vivo, sem que haja apresentação de dança –, o endereço é, de novo, a Ciudad Vieja, onde está o Baar (com duplo “a” mesmo) Fun Fun. O ambiente do bar não somente tem estilo antigo, mas é realmente antigo: funciona desde 1895.
Ali, a decoração lembra mais uma cantina italiana, com objetos, bandeiras e fotos penduradas pelas paredes, que demonstram que o lugar é uma “instituição” de Montevidéu, tendo recebido de artistas como os mitos do tango Carlos Gardel e Astor Piazzola ao ator Danny Glover e o cantor Bryan Adams, além de políticos como a ex-presidente chilena Michelle Bachelet.
O público do Fun Fun reúne de jovens a cinquentões, a maioria com as passionais letras de tango na ponta da língua e que não dispensa ao menos uma dose de uvita, bebida criada e patenteada pela casa e que é uma mistura de vinhos e ervas, cuja receita é mantida em segredo. Conta a história que até Gardel provou a doce uvita, da qual ele gostou tanto que acabou dedicando um tango à bebida e deixou a foto autografada que está numa das paredes.
Baladas bacanas na parte moderna e no centro histórico, assim como ocorre com um monte de atrativos de Montevidéu, que, ao mesmo tempo que ganha hotéis, restaurantes e espaços comerciais e empresariais, acerta as contas com seu passado arquitetônico de olho no futuro. Talvez por tudo isso a capital uruguaia agora esteja num momento especial e voltando a ser tão atraente, um lugar que, por hora, consegue equilibrar, sem choques, o antigo e o novo.
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