Vanuatu mostra beleza das águas e do fogo
Pegue um mapa. Dos grandes. Agora, avance para o outro lado do mundo, na direção da Austrália. Pare só um pouco antes, no meio do mar, e suba até um pontilhado de ilhas, mais ou menos entre a Nova Zelândia e Papua Nova Guiné. Pronto! Você chegou!
Um grupinho delas chama-se Vanuatu – República de Vanuatu, já que se trata de um país.
Port Vila
Port Vila é apenas a porta de entrada em Vanuatu, já que ela é também a maior cidade do país – para não dizer a única. De lá, pequenos aviões levam seus (poucos) visitantes para algumas outras ilhas, já que das 83 que formam o arquipélago, apenas 12 podem ser consideradas "habitadas", para quem tem o hábito de dormir, pelo menos, sobre um colchão. A primeira parada pode ser a Ilha de Pentecostes.
Pode parecer irônico um nome cristão para uma região de costumes tão pagãos, mas ele é fruto do feriado religioso comemorado no dia em que um navegador francês deu de cara com a ilha, em 1768. Aliás, não é o único nome assim. Quase vizinha a Pentecostes fica outra ilha de nome estranhamente familiar para nós: Espiritu Santo.
A visita a Pentecostes é movida por uma curiosidade: o "naghol" ou, talvez, o festival mais bizarro do mundo. "Naghol" significa algo como "mergulho na terra" e é exatamente isso o que alguns homens da ilha fazem durante as festividades. Para comemorar a colheita do inhame, que é o alimento básico de Vanuatu, eles simplesmente se atiram do alto de torres de madeira de até 40 metros de altura, amarrados pelos pés com cordas rústicas feitas de fibras e raízes da própria planta. Embaixo não há nenhuma proteção. Só o chão duro da ilha. Se algo der errado, a morte é certa. Mas foi justamente a insanidade dos saltadores de Pentecostes que inspirou o moderno bungee jump – sim, ele nasceu lá!
O naghol só pode ser comemorado de abril a junho, quando as fibras do inhame (que está para Vanuatu assim como o arroz com feijão para nós) estão com a elasticidade necessária para não arrebentar, nem causar um tranco tão fatal quanto o do próprio impacto com o solo. Não há a menor tecnologia no ritual – só a intuição e a coragem dos homens. Mesmo assim, são raríssimos os casos de "acidentes".
Durante a época dos saltos, enquanto os jovens se preparam (só homens podem pular), as mulheres entoam cantigas e encenam danças típicas. Os participantes, trajando apenas uma faixa na cintura e um suporte genital feito de casca de árvore, escalam a torre, um de cada vez, como se estivessem em transe, já que, durante o festival, eles acreditam que o espírito de um temido guerreiro se apodera de todos os saltadores. Lá em cima, são amarrados pelos tornozelos e se atiram no vazio. A visão é de fazer tremer. Como um suicídio planejado. Mas que, para eles, tem um significado importante: o sacrifício como forma de agradecimento.
Ilha Tanna
Tanna, outra ilha de Vanuatu, é dominada por um vulcão ainda ativo que vive cuspindo lavas e enche de cinzas o céu à sua volta. À noite, o espetáculo pirotécnico ilumina as vilas ao redor e cada novo vômito de pedras, vindo das entranhas do vulcão, produz um estampido parecido com um disparo de canhão – além de fazer trepidar o chão de quase toda a ilha. Nos momentos mais críticos, os nativos promovem rituais e servem oferendas aos deuses. Quase sempre são rechonchudos porcos, já que os suínos desempenham um papel crucial na sociedade tribal de Vanuatu. São eles que determinam o status de seu proprietário. Quanto mais porcos uma pessoa tiver, mais ela será respeitada na comunidade. Os porcos são usados até como dotes de casamento! Cabe ao chefe da vila (cada vila tem um) determinar quantos animais o pai do noivo deve doar à família da noiva. Porque, a despeito das autoridades constituídas (polícia, delegado e juiz), quem manda ali é ele.
Para um forasteiro entrar num vilarejo vanuatense é preciso, primeiro, pedir permissão ao chefe. Para isso, assume-se uma postura de submissão. Mulheres não podem ficar mais altas que o chefe (se ele estiver sentado, senta-se também) e os homens são convidados a tirar os chapéus e até os óculos, em sinal de transparência e respeito. Cada vila tem, ainda, um local específico para as mulheres ficarem reclusas durante os períodos de menstruação e homem algum é autorizado a visitá-las nesses dias. Primitivo demais? Não. É apenas tradição. A mesma que determina que, ali, ninguém deve cobrar mais do que valem as coisas. Razão pela qual não há gorjetas em Vanuatu. Nem, muito menos, pedintes. Em compensação, todas as caronas são pagas e qualquer veículo é um táxi em potencial. Você acena e alguém pára, cobrando apenas o quanto você quiser dar – o tal pagamento justo, citado acima.
Ilha Espiritu Santo
O fundo do mar de Espiritu Santu é repleto de naufrágios e restos intactos da Segunda Guerra Mundial, quando a ilha tornou-se uma base americana. Muitos mergulhadores vão para lá com o objetivo de conhecer. E sempre saem boquiabertos com o que encontram. Há um arsenal militar completo sob aquelas águas, afundado de propósito pelos americanos, após o fim da guerra. São tanques, guindastes, caminhões, armas, capacetes e até contêineres de garrafas ainda fechadas de Coca-Cola, que o governo francês recusou-se a comprar (algumas garrafas, ainda com o líquido dentro, são vendidas como suvenir no aeroporto local). O grande arsenal submerso passou a ser chamado de Million Dollar Point, ou "Ponto do Milhão de Dólares", já que foi mais ou menos isso que os soldados atiraram ao mar, nas baías de Espiritu Santo.
O enorme e luxuoso transatlântico americano President Coollidge, transformado em navio de transporte de tropas, afundou acidentalmente ao bater numa mina que os próprios americanos haviam colocado. Como uma espécie de Titanic dos mares do sul, o gigantesco navio está inteiro e com tudo a bordo – inclusive utensílios pessoais dos soldados! Sua localização, porém, é ainda mais peculiar: fica quase na beira de uma das praias, de forma que os mergulhadores avançam caminhando.
As amputações são encaradas com a naturalidade de um curativo nas ilhas, porque, embora os vanuatenses tenham tendência genética à diabetes, não há geladeiras nas casas para manter a insulina. Resultado: quando aparecem no hospital, nada mais pode ser feito, a não ser extirpar o membro afetado.
Cultura
A população tem menos de 200 mil pessoas e fala 115 idiomas tribais diferentes! Um não entende o outro. A não ser em bislama, a língua oficial do país e que é uma espécie de inglês simplificado (tem apenas 2 500 palavras, contra as 35 000 do idioma de Shakespeare). Ela foi criada justamente para tentar colocar alguma lógica naquela Torre de Babel. Além disso, como uma parte das ilhas foi colonizada por ingleses e a outra parte, por franceses, metade da população fala, também, francês e a outra, inglês. É uma fascinante balbúrdia.
As pessoas são bastante hospitaleiras. A catequização, feita por missionários europeus num passado ainda recente, tornou os vanuatenses amistosos e cordiais, o que não deixa de ser surpreendente quando se sabe que seus antepassados foram temíveis canibais e que, até pouco tempo atrás, ainda se devorava gente por ali – relatos falam que o último caso de antropofagismo nas ilhas aconteceu em Malakula, há alguns anos, mas não há provas concretas disso.
A capital do país, Port Vila, é uma cidade pequena, mas repleta de modernismos, como restaurantes refinados, supermercados com caixas eletrônicos e resorts à beira-mar. Nem dá para notar que o lugar mal aparece nos mapas. Muito menos que se esteja na mesma ilha onde, ao lado da capital, tribos remotas ainda vivem como na pré-história, em casas de palha, pescando com lanças e cozinhando com brasas (as mesmas sobre as quais eles, depois, caminham, como prova de coragem). No Brasil, nós também temos diferenças. Mas não como aquelas!
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