Arquipélago de Los Roques é o lugar ideal para mergulhar e descansar à beira mar
A lancha, do tipo “voadeira”, atraca-se à areia branquíssima. O vento, forte e constante, faz os barqueiros usarem toda a habilidade para montar, em minutos, um mega guarda-sol. Missão cumprida, sobem na lancha e se mandam, deixando você e seu par com espreguiçadeiras e uma cave (geladeira portátil) guarnecida de cervejinhas, sucos, frutas, água e lanches. São nove da manhã e o resgate daquela ilha, insuportavelmente bela e maravilhosamente deserta, é marcado para as cinco da tarde. O mar, de turquesas e esmeraldas desconcertantes, pontuado por bandos de gaivotas e pelicanos, fascina os olhos e descansa a mente. Sem ter nada a fazer – além de caminhar pela orla e mergulhar na água quentinha –, você... faz nada. E isso é perfeito. Melhor: naquelas paragens há dezenas de ilhas assim, com o mar sempre calmo, o vento a bater, e o sol de rachar.
O transe só é quebrado por nuvens preguiçosas, cardumes de peixes, um barquinho ou outro, a passarada e, de tempos em tempos, mergulhadores a nadar sem rumo com seus snorkels. Los Roques é um pequeno e prodigioso arquipélago venezuelano em pleno Caribe, cuja riqueza natural foi declarada parque nacional em 1972. Lá, tudo é sol e mar. Muito sol. Mesmo com protetor fator 50, a pele se ressente. Recomenda-se, pois, chegar com o couro minimamente curtido.
É o que fazem as italianas que lagarteiam em tangas sumárias à beira-mar, com óculos escuros de grife e chapéu. Elas se sentem em casa. Faz sentido: se bobear fala-se mais italiano do que espanhol nessas praias. O mérito da “descoberta” das ilhas, antes frequentadas apenas por pescadores, é quase todo deles. O tempero e o charme italianos se fazem presentes no bom gosto das pousadinhas, dos restaurantes e, em especial, dos pubs instalados na praia de Gran Roque, a única ilha habitada de fato. Ali ficam também a vila dos moradores, com serviços básicos, o píer, o aeroporto e o velho farol.
Sem massificação
Atravessar o povoado e subir até o farol levantado em 1880 – e desativado por volta de 1950 –, é passeio indispensável no final da tarde. A caminhada é leve e a vista, linda. Dá para ter perfeita noção de como a vila é pequena e bem organizada. Também, a administração local não tinha escolha: até recentemente, a água potável chegava de barco e a energia elétrica era racionada. Com muito custo, instalou-se um dessalinizador de água, geradores mais potentes e a vida melhorou.
Ainda assim, as regras insulares são rígidas. Nada de novas construções. Proibição total de resorts, cruzeiros marítimos e coisas massificadas do gênero. Carro ou moto nas ruazinhas? Nem pensar. Você pode andar descalço pela vila sem medo de pregos ou cacos de vidro: as ruas são de imaculada areia branca. Cada pousadinha cuida do próprio lixo e mantém limpa a “calçada”.
Não fossem os nomes nas fachadas – em geral pintados à mão – nem seria possível identifica-las. As pousadas foram instaladas em antigas casas de pescadores e a arquitetura mudou apenas por dentro, e olhe lá. O toque europeu fica por conta da pintura, decoração e, claro, do cardápio. Com três ou quatro quartos despojados (em geral equipados apenas com ventilador e banheiro com chuveiro frio) e uma sala de convívio social, as pousadas quase sempre oferecem pensão completa: café da manhã caprichado, lanche na praia e jantar na sala ou na varanda, tudo com hora marcada e menu previamente definido. Nas mais baratas, situadas na plaza Bolívar, é comum o jantar ser servido numa mesa grande e os hóspedes sentarem juntos. Assim é na Magalis (magalis.com/posada.htm). A casa, de paredes coloridas e enfeitada com temas marinhos, serve uma generosa comida creolla, num ambiente muito simpático e acolhedor.
E o barquinho vai...
Pufes coloridos dispostos na areia, lanternas japonesas, velas nas mesinhas e um clima de descontração chique dominam o final de tarde em Gran Roque. É verdade que cada drinque ou petisco vale seu peso em ouro, mas que graça teria a vida sem algumas extravagâncias? Até porque, você não precisa bater ponto no pub todo dia, como fazem os europeus. Andar até o final da praia, sentar no píer e acompanhar a bola de fogo mergulhar no mar, enquanto grupos de pelicanos pescam sem pressa, é um baita programa. Se estiver bem acompanhado, melhor ainda, pois o cenário convida a romance, namoro y otras cositas más.
Dependendo da ilha escolhida ou da época do ano, você finca o guarda-sol e conquista um quinhão de praia absolutamente deserta. Para alguns, deserta até demais. Em Crasquí e Francisquí há dois ou três barzinhos na praia. Nas outras ilhas, esqueça a ideia de pedir uma caipirinha ou chamar o vendedor de mate e biscoito de polvilho. Há, inclusive, a possibilidade de ancorar num daqueles bancos de areia que parecem existir apenas no mundo da publicidade.
Assim, se o pacote não incluir refeição completa, abasteça a cave na licorería e garanta uns petiscos na padaria, onde se encontram arepas fresquinhas. Acompanhada de ovos mexidos, queijo e pedaços de peixe (ou outras carnes), essa espécie de panqueca feita de milho branco é marca registrada da culinária venezuelana. Em Los Roques, porém, as arepas não reinam absolutas no desjejum. Claro que os europeus deram suas colheradas e adicionaram crepes, pães macios e muito mais. Sorte da gastronomia local. Influências italianas, espanholas e até francesas deram tempero especial aos fresquíssimos frutos do mar. Resumo da ópera: come-se muito bem em Gran Roque. Vale citar o El Santo de la Ballena, com peixes e mariscos regados a boa música e impagável vista para a orla; o La Pecera, que serve comida italiana e japonesa; e o Bora la Mar, de cozinha internacional.
A lagosta, apreciadíssima na região, tem temporada de pesca autorizada de 1o de novembro a 30 de abril. Fora desse período, a lei e os roqueños velam para que se respeite a proibição. Sabem que a sobrepesca compromete a vida de todos – e que manter a exuberante fauna marinha equivale a estimular o turismo. Los Roques abriga hoje 280 tipos de peixes, 61 espécies de corais e 200 de crustáceos, sem falar nas esponjas, moluscos e outros seres do mar.
Esse formidável mundo marinho é repleto de recifes e corais, onde barracudas, caranguejos, estrelas-do-mar, lagostas e milhões de peixinhos convivem em paz. O arquipélago ainda acolhe diferentes espécies de pássaros migratórios e uma quantidade razoável de gaivotas barulhentas e divertidos pelicanos. Essa fauna tão rica é especialmente protegida em centenas de ilhas e ilhotas, onde é proibido ancorar sem autorização do Imparques, o equivalente ao Ibama. Um programa bacana é visitar, na ilha de Dos Mosquises, a Estação de Biologia Marinha, dirigida pela Fundação Científica Los Roques, que cuida de tartarugas ameaçadas de extinção. Ali você vê os filhotes sendo alimentados em tanques de água até completarem um ano, quando são entregues ao mar.
Se o seu tempo de estada for curto, fique com as ilhas mais próximas: Madrisquí, Cayo Pirata e Francisquí. A primeira oferece, na parte ocidental, uma praia deslumbrante, mas nada deserta. Há casas de veraneio, bar, restaurante e movimento de iates. Cayo Pirata é habitada por pescadores e ligada a Madrisquí por um banco de areia, por onde se caminha tranquilamente com o mar na altura dos joelhos. Já em Francisquí você passa o dia numa piscina natural e fica horas viajando nas tonalidades de azul do mar.
Lagoa de coral
Caso tenha a sorte de poder ficar uma semana ao sol, conheça a Ensenada de los Corales, uma gigantesca “lagoa” de coral de 37 quilômetros de comprimento e 11 de largura. Lá o mar é sempre manso e as ondas apenas deslizam na areias brancas feitas de puro coral. Esse espelho d’água é perfeito para mergulhar com snorkel. Boca de Cote também é recomendada para bisbilhotar o mundo subaquático... O fato é que o snorkel tem sua graça em todas as ilhas. Com um pouquinho de paciência e sorte, peixinhos coloridos simplesmente desfilam na sua frente. Dependendo do esquema, ainda é possível realizar um mergulho noturno e ver o peixe-papagaio dormindo na toca, moreias caçando e outras cenas típicas de um programa à la National Geographic.
Tem mais: em Gran Roque você pode alugar desde um catamarã até um iate. Aos adeptos do windsurfe e do kitesurfe, o vento forte e constante é combustível perfeito para deslizar sem esforço. Para curtir as ilhas por outro ângulo, nada como passear de ultraleve. Mas se o passeio ultrajar o bolso, lembre-se que a curta viagem entre Caracas e Los Roques já inclui uma vista panorâmica que, por si só, vale o bilhete.
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Clique aqui para se autenticar.- Publicado em 10/05/2012 18:04 - Atualizado em 14/05/2012 13:23
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